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Monthly Archives: November 2011

China – uma reflexão

Vou falar um pouco sobre a China. Mas o que tem a ver com um blog de uma viagem à África? Bem, tem a ver sim, e eu já tinha feito o comentário de que a China está no meio de uma nova colonização no continente africano. Mas vamos lá, vou começar lá de trás, da minha primeira ida à China, em 1987.

Estive visitando Hong Kong, que na época nem era China (só foi devolvido à China em 1997) ainda. Resolvi comprar uma daquelas excursões de 1 dia para irmos até Cantão (hoje chamada Guangzhou). Era uma cidade grande, no sentido de que tinha mais de 1 milhão de habitantes. O veículo predominante era a bicicleta, e apesar de estarmos na década de 1980, parecia estarmos na década de 1930. Um atraso só. Era inclusive o motivo pelo qual as pessoas pagavam 100 dólares só para ver como a China era atrasada e diferente do resto do mundo. Equivale ao que as pessoas fazem hoje ao visitar a Coréia do Norte ou Cuba.

Hoje Guagzhou tem mais de 7,5 milhões de habitantes, virou a principal cidade da província de Guangdong, que tem 83 milhões de habitantes, e 7 cidades com mais de 1 milhão. Foi lá, alguns anos depois, o primeiro experimento capitalista na China, onde formaram uma ZPE, Zona de Proteção Econômica, tipo Zona Franca de Manaus, só que obviamente com muito mais sucesso do que aqui.

A minha segunda ida à China foi em 1991, e nessa vez eu passei quase 1 mês por lá. Saí de Hong Kong e fui até Beijing (antiga Peking) por etapas, utilizando vários meios de transporte: barco, trem, ônibus e avião. Era ainda muito parecido com o que eu vi em 1987, isto é, muito atraso, muita pobreza, pouca infraestrutura. Me lembro que em Beijing eu aluguei uma bicicleta, e com isso podia visitar a cidade quase toda. Havia poucos carros nas ruas, as bicicletas é que mandavam no trânsito. Havia pouquíssimos prédios, todos eles antiquados, e a infraestrutura era precária. Os trens eram antigos, as estradas horrorosas, o Brasil parecia país de primeiríssimo mundo comparando com os padrões chineses da época.

A terceira vez foi em 1995, e essa foi bem diferente das outras duas. Estava no Nepal, e queria visitar o Tibet. O Tibet é considerado pela China uma província como qualquer outra. Foi invadido em 1950 e até hoje não reconquistou sua independência. E nem vai. Primeiro que nunca houve nenhum motivo econômico para que nenhuma potência estrangeira peitasse a China sobre o caso. Agora então que a China se transformou em uma potência mundial, econômica e militar, é que as chances são zero de isso acontecer. O que eu vi lá foi uma sistemática política de eliminar um povo e uma cultura, e substituir pelo povo e pela culturas chineses. Enquanto que no resto do país existe a política do filho único, no Tibet as famílias chinesas são recompensadas se tiverem mais filhos. Há também uma política de incentivo à migração de chineses de qualquer parte do país para o Tibet. As mulheres tibetanas sofrem esterilização forçada. Naquele ano, 1995, Lhasa, a capital tibetana já era praticamente uma cidade chinesa. Vista de cima, lá do Palácio Potala, o mais lindo do mundo visto de fora, via-se claramente um bairro tibetano, cercado por um mar de bairros chineses. Os mais de 3.000 monastérios tibetanos do país foram reduzidos a menos de 10, que só permaneceram de pé para incentivar a indústria do turismo, mas nada que atrapalhe o projeto de tornar o Tibet uma província irremediavelmente chinesa, o que parece que já aconteceu. O ponto final nesse projeto foi a construção da ferrovia que liga o Tibet ao resto da China. Tive a oportunidade de ler bastante sobre a história do Tibet quando estava por lá, e realmente fiquei revoltado com o fato de tudo isso estar acontecendo nas barbas do mundo inteiro, que prefere ignorar, a se indispor com os chineses.

Quando fui à Europa nas primeiras vezes, na década de 1980, nos impressionava quando víamos tantos japoneses em todos os pontos turísticos. Foi antes da longa estagnação da economia japonesa, e o país estava bombando. Brincávamos dizendo que o Japão era tão superpovoado, que os japoneses tinham que viajar para fora pois não cabia todo mundo na pequena ilha. Ou que estava tão caro por lá, que era mais barato viajar para o exterior do que dentro do Japão. Lembra um pouco a situação atual no Brasil, onde é mais barato passar férias nos Estados Unidos do que no Nordeste.

Voltando à 2011, além do que vi na África, acrescento o que eu vi nesta última ida à Europa. Em todos os pontos turísticos, os chineses eram maioria, mas maioria mesmo, nos trens principalmente. Sei identificar a diferença dos chineses para outros orientais, pois reconheço o sotaque, e às vezes pela maneira espalhafatosa e engraçada com que eles se posicionam para tirar fotos. Lembro-me de ter tirado fotos dos chineses tirando fotos, pois para mim, eram mais interessantes do que as próprias fotos que eles estavam tirando. Eles substituíram os japoneses da década de 1980, mas agora a tendência é que a situação não se reverta tão cedo.

Tudo isso para fazer algumas constatações:

Os chineses, em pouco mais de 20 anos, sairam da idade da carroça para se tornarem a segunda economia do mundo, e em torno de 30 anos serão a primeira. Hoje um dia eles são considerados a locomotiva da economia mundial, se apenas diminuirem sua taxa de crescimento, o mundo inteiro entra em recessão, Brasil junto, já que eles se tornaram nos últimos anos o nosso maior parceiro comercial. Por essa razão, são respeitados e temidos por todo mundo, e como têm um real poderio econômico, estão de fato conquistando vários projetos mundo a fora, e colocando seus pés em vários países, de uma forma tão clara e enfática, que tornará inviável um retrocesso no futuro. Isso sem falar que se tornaram o maior poluidor do mundo atualmente, sem se preocupar com as consequências. Quem esteve em Beijing nos últimos anos sabe do que estou falando. Me lembro no ano de 2008, a grande quantidade de reportagens sobre a poluição em Beijing, que tornava o ar irrespirável, e a visibilidade mínima. Quem vai pressionar o governo chinês a controlar essa poluição?

Suas políticas de ocupação e de direitos humanos são tolerados de uma forma até revoltante, já que por muitíssimo menos os Estados Unidos e OTAN já invadiram e/ou declararam guerras a outros países menos musculosos. Aí vem o dilema: é para ficar com raiva dos chineses ou do governo chinês? Afinal, nem protestar o povo chinês pode, quanto mais escolher sesu governantes. Na minha época de MBA na Bélgica, tinha um colega chinês, o Li Lei, gente finíssima. Quando fui à Beijing em 1991, a família dele me recebeu no aeroporto, me acolheu em sua casa (até sermos expulsos pela polícia secreta chinesa), e me deu toda a atenção possível. Foi muito legal mesmo. Na época, criei um carinho especial pelo povo chinês. Isso antes de ir ao Tibet, claro.

Tendo estado na África já algumas vezes, feito safaris e me interessado pela vida animal, não consigo deixar de mencionar 3 espécies que têm sido foco de reportagens na mídia, que alerta para a diminuição dramática em suas populações. São elas o rinoceronte, o tubarão e o tigre. É de conhecimento de todos que o chifre do rinoceronte, os testículos do tigre e as barbatanas do tubarão se tornaram mercadorias de alto luxo, com preços que ultrapassam as dezenas de mihares de dólares por quilo, o que torna extremamente atraente para os caçadores e contrabandistas. Isso tudo por conta da cultura chinesa, que previlegia tradições milenares, ignorando suas consequências no mundo atual.

Tudo isso para meter o pau nos chineses? Nem eu mesmo sei. Parece que sim, mas não são os únicos com telhado de vidro. Apenas têm hoje o maior telhado no momento. Acho que é apenas um incentivo à reflexão.

 
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Posted by on November 28, 2011 in Africa

 

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Frio na Barriga

Cheguei hoje de uma rápida viagem para a Europa. Fui levar minha filha, que fará 15 anos no mes que vem. Ela me pediu de presente de aniversário, e fiquei bastante orgulhoso de ter sido escolhido para a estréia dela no Velho Continente. Foram apenas 10 dias, que começaram em Milão, depois Roma, Florença, Veneza e culminou com 4 dias em Paris. Muito corrido, mas deu para ver o principal de cada lugar. Óbvio que estou contando que ela retornará várias vezes, e aí terá a oportunidade de visitar as atrações mais profundamente.

Mas o que me chamou a atenção nesta viagem foi o fato de eu não ter sentido um frio na barriga antes de sair de casa. Também ora, tendo morado na Bélgica por 2 anos, e por isso tendo tido várias oportunidades de visitar Paris e a Itália, seria normal. Mas daí me lembrei da recente viagem à África, onde o que não faltou foi frio na barriga antes de sair de casa.

O primeiro local visitado por mim foi Addis Abeba, capital da Etiópia. De lá, fui fazer o circuito histórico no norte da Etiópia, e retornei à Addis Abeba. De lá, saí novamente, desta vez fui visitar o leste do país, e retornei mais uma vez à Addis. Foi quando me dei conta que, apesar de estar na Etiópia, não sentia mais o frio na barriga. Talvez por ser a terceira vez em menos de 2 semanas que eu estava por lá, e sempre ficando no mesmo hotel. Se tornou então um território conhecido para mim.

E é isso que me motiva a viajar mais. O tal frio na barriga. O fato de conhecer algo novo. Hoje em dia, com tanta informação disponível na internet, quase qualquer lugar pode ser “visitado” do conforto da sua casa. Isso significa que são poucos os lugares que dão aquele frio na barriga. E esses são os que me atraem.

Estava hoje mesmo conversando com o Guilherme, do excelente blog http://saiporai.wordpress.com e comentei com ele que quando eu fui à Índia em 1988, não havia internet, guias turísticos, e nem qualquer informação sobre hotéis, restaurantes, transportes, etc. Fui para lá sem qualquer ajuda. Não faltou o frio na barriga. A sensação de não saber o que vai encontrar, da novidade no sentido mais puro da palavra. Incrível! Até hoje me orgulho de ter feito daquela forma.

Só para completar: tem gente que detesta esse frio na barriga, e tenho respeito por todos que pensam assim. Preferem viajar com tudo esquematizado, parece que já curtiram a viagem antes de sair de casa. Hoje dá para ir para a Índia tendo comprado de casa os bilhetes de trem, avião, quartos de hotéis e/ou albergues, listado as atrações, buscando no google suas localizações exatas nas cidades onde ficam. E por outro lado, também dá para viajar para a Europa com o frio na barriga. Depende de onde, como, com quem, quando, e outras perguntas mais.

 
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Posted by on November 24, 2011 in Africa

 

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Matéria National Geographic

Já fazem quase 50 dias que cheguei de volta da África. Para surpresa minha, o blog continua sendo acessado, muito mais do que eu imaginava. A vontade de botar o pé na estrada já voltou. Domingo viajo com a minha filhota Fernanda para a Europa, uma rápida viagem de 12 dias, pela Itália e Paris. Tenho certeza que será uma viagem maravilhosa, pois é a primeira vez dela na Europa, e ela escolheu ir comigo, como presente por seus 15 anos. Prometo postar alguns comentários quando voltar.

Com relação à vida de mochileiro, como sempre acontece, já começo a fazer planos para as próximas. Mas infelizmente na volta desta viagem à Europa será a hora de ganhar o leitinho das crianças. Devo voltar à trabalhar com carteira assinada, e aí, viagem só depois de 1 ano. Mas a gente aguenta…

Achei hoje uma reportagem da National Geographic sobre o Rift Valley, que é a região que compõe o oeste de Uganda, Ruanda, Burundi e o leste da República Democrática do Congo. Exatamente a região por onde andei. Vale uma lida, já que eles faze m uma análise bem completa sobre o histórico da região, a situação atual e perspectivas para o futuro (infelizmente nada animadoras, conforme eu já tinha escrito antes).

Segue o link: http://viajeaqui.abril.com.br/materias/vale-do-medo

Segue pelo menos o texto, pra quem não conseguir acessar o link :

Vale do medo

No Grande Vale Rift são abundantes as chuvas, os lagos profundos, o solo vulcânico e a biodiversidade. Também está ali a maior densidade demográfica do planeta

mwami ainda se lembra bem da época em que era uma espécie de rei. Suas decisões eram incontestáveis, e seu poder, absoluto. Desde 1954, tal como o pai e o avô, ele foi o líder do povo Bashali no distrito Masisi, uma região ondulante e bucólica no leste da República Democrática do Congo (RDC). Embora seu nome seja Sylvestre Bashali Mokoto, os outros chefes o chamam apenas de doyen (“decano”), em francês – ou seja, o mais antigo deles. Durante toda a sua vida adulta, o mwami era quem acolhia os recém-chegados ao distrito. Estes lhe ofereciam gado e presentes. Ele, por sua vez, distribuía terras conforme lhe convinha.

Hoje, o chefe está sentado no sofá molambento de um barraco na cidade congolesa de Goma, distante várias horas de carro ao sul de Masisi. E seus antigos domínios encontram-se no epicentro de uma crise humanitária que se arrasta há mais de uma década, quase sempre ignorada pelo resto do mundo. A região leste da RDC está ocupada por milhares de tutsis, hutus e hundes, que se digladiam pelo controle do que alegam ser suas propriedades legítimas; por milícias empenhadas em conquistar terras a ferro e fogo; por criadores de gado em busca de pastagens; e por hordas de refugiados oriundos de todos os pontos da fértil e superpovoada África Oriental e que necessitam de um lugar qualquer em que possam sobreviver. Anos atrás, um membro de um dos bandos rebeldes apoderou-se do sítio de 80 hectares do mwami, obrigando-o a refugiar-se, humilhado e temeroso, nesse barraco em Goma.

A cidade, porém, também é um barril de pólvora. Há duas décadas, Goma contava 50 mil moradores. Hoje sua população é pelo menos 20 vezes maior. Homens uniformizados e armados vagam ameaçadores pelas ruas escuras e esburacadas, sem prestar conta a ninguém. Afluindo das matas circundantes, rumo ao mercado da cidade, dia e noite há um tráfego incessante de gente transportando enormes sacos de carvão vegetal em bicicletas ou em motonetas de madeira, as chukudus. Ao norte da cidade, fervilha o vulcão Nyiragongo, cuja última erupção ocorreu em 2002, lançando rios de lava que devastaram a zona urbana. Ao sul fica o caldeirão prateado do lago Kivu – tão impregnado de dióxido de carbono e metano que uma explosão de gás poderia matar todo mundo na cidade e nos arredores.

mwami, como tantos outros, está num beco sem saída. Ainda guarda seu olhar altivo, de uma indiferença régia. Porém, a despeito dos punhos com abotoaduras e da bem aparada barba grisalha, em Goma ele não é chefe de mais nada.

Nas últimas décadas, a região tornou-se palco de uma violência de proporções vertiginosas: dezenas de milhares foram assassinados e sequestrados no norte de Uganda, mais de 1 milhão de pessoas foram massacradas nos genocídios de Ruanda e Burundi, e em seguida aconteceram duas guerras no leste da República Democrática do Congo. Estima-se que a última delas, conhecida como a Grande Guerra Africana devido ao envolvimento de vários países vizinhos, tenha resultado na morte de mais de 5 milhões de pessoas, em sua maioria vítimas de doenças e da fome, o que faz dela o conflito mais mortífero desde a Segunda Guerra Mundial. Disputas que eclodiram em um país transbordaram para além das fronteiras e viraram guerras por procuração, com os governos vizinhos apoiando diversos grupos rebeldes, uma confusa mixórdia de milícias identificadas por siglas – LRA, FDLR, CNDP, RCD, AFDL e MLC, entre outras –, disputando o poder e os recursos em uma das porções mais ricas de todo o continente africano.

A terrível violência que se abateu nesse lugar é impossível de ser entendida em termos simples. Mas a geografia desempenha um papel decisivo. Quando se desconsideram as fronteiras de Uganda, RDC, Ruanda, Burundi e Tanzânia, nota-se o que há de comum nessas entidades políticas disparatadas: a paisagem formada pelas forças tremendas liberadas do deslocamento das placas tectônicas. Na África Oriental, o Grande Vale Rift divide ao meio o Chifre da África – com a placa Núbia, a oeste, afastando-se da placa Somaliana, a leste – antes de se bifurcar ao sul por ambos os lados de Uganda.

O ramo ocidental do Rift inclui as cordilheiras Virunga e Rwenzori e vários dos grandes lagos do continente, nos quais a fenda profunda foi ocupada pelas águas. O Rift Ocidental – também conhecido como Rift Albertino, por causa do lago Albert – é uma fenda geológica que se estende por 1 480 quilômetros, abrangendo florestas de altitude, montanhas com picos sempre nevados, savanas, cadeias de lagos e terras úmidas, e constitui uma das regiões mais férteis e biodiversificadas da África, na qual se encontram gorilas, ocapis, leões, hipopótamos e elefantes, espécies raras de aves e peixes, além de recursos minerais que vão de ouro e estanho a coltan, um elemento crucial na fabricação de microprocessadores.

O paradoxo do Rift Ocidental é que a riqueza acabou levando à escassez. As pessoas amontoaram- se nessa área devido ao fértil solo vulcânico, às chuvas, à biodiversidade e à altitude elevada, que a torna inóspita aos transmissores de doenças, como as moscas tsé-tsé. Com o crescimento da população, aumentou o desmatamento para abrir terras para cultivo e pastoreio. Mas a questão é: há recursos suficientes para tanta gente?

Essa pergunta coloca-se em cada centímetro quadrado do Rift Ocidental, no qual a taxa de fecundidade está entre as mais altas do mundo. Um lugar onde grassa a violência entre os seres humanos e os animais, em uma confusão medonha de grilagem de terras, ondas intermitentes de refugiados, estupros em massa e pilhagem dos parques nacionais. Para os empobrecidos moradores da região, a superpopulação desencadeou uma ansiedade tão primitiva e onipresente que se ouve por toda parte o mesmo apelo:

Queremos terra!

O suspeito de matar leões está sentado à margem do lago George, entretido com um animado jogo de tabuleiro, conhecido como omweso, ao lado de outros pastores de gado. Ele levanta os olhos, apresenta-se como Eirfazi Wanama, e diz que não pode me falar a sua idade nem quantos filhos tem. “Nós, africanos, não contamos a nossa prole”, declara, “pois vocês, muzungus, não querem que a gente tenha muitas crianças”. Muzungu é uma gíria para se referir aos brancos. Com um sorriso matreiro, Wanama diz: “Você não precisa disfarçar, sei o que quer saber. Alguns leões foram mortos por aqui, e os guardas vieram no meio da noite e me prenderam”.

No fim de maio de 2010, dois guardas-florestais do Parque Nacional Queen Elizabeth, em Uganda, avistaram urubus pairando em uma clareira a 1,5 quilômetro de Hamukungu, o vilarejo em que mora Wanama, e ali descobriram os corpos mortos de cinco leões envenenados. Perto havia duas carcaças de vacas que tinham recebido alimentos misturados com carbofuran, um pesticida azulado. Os primeiros indícios apontavam para Wanama; um outro suspeito fugiu. “Fiquei detido por um dia”, conta. “Mas eles me excluíram do inquérito. Não sou foragido.”

Hamukungu está dentro dos limites do parque, onde a principal atração turística são os leões, cuja população diminuiu 40% em menos de uma década. “Aumentou o número de moradores no vilarejo”, diz Wilson Kagoro, o responsável comunitário pela conservação do parque, “assim como a quantidade de gado, o que gerou um conflito. Eles entram de maneira sorrateira de noite, levando o gado para pastar. E, quando isso acontece, os leões fazem a festa.” Já que o uso do parque como pastagem é proibido, os criadores prejudicados não têm direito de ressarcimento por seus animais mortos. Mas não significa que não lancem mão de outros recursos. “Só estamos vivos graças à misericórdia divina”, responde Wanama quando pergunto como tanta gente consegue sobreviver em área tão pequena. “A criação do parque nos desgraçou!”

O Queen Elizabeth foi criado em 1952, quando ficou evidente que a região abrigava uma das mais elevadas biomassas de mamíferos de grande porte do planeta, de acordo com Andrew Plumptree, diretor do programa do Rift Albertino na Wildlife Conservation Society. Porém, as turbulências sociais e políticas dificultaram o esforço de proteção da fauna. Ao longo das décadas, caçadores ilegais e moradores desesperados fizeram incursões nas reservas e acabaram por dizimar as populações de elefantes, hipopótamos e leões. Em 1980, a quantidade de elefantes havia caído de 3 mil para apenas 150 no Queen Elizabeth.

No leste congolês, o Parque Nacional Virunga – o mais antigo do continente, criado em 1925 – está entre os mais ameaçados, com muita gente já instalada dentro de seus limites. Os campos, antes fervilhantes de espécimes carismáticos da megafauna, agora estão vazios. Os locais de hospedagem dos turistas foram todos destruídos. Desde o genocídio em Ruanda em 1994, grande parte do parque está fechada aos visitantes.

E com razão, pois ali é uma zona de guerra. Rodrigue Mugaruka é o administrador de Rwindi, o setor central de Virunga. Ele foi um dos soldados-crianças que participaram, em 1997, da derrubada de Mobuto Sese Seko, que por muito tempo foi ditador da RDC (então chamada de Zaire). No leste do Congo, o vácuo de poder criado após a queda de Mobuto desencadeou uma competição entre bandos armados e milícias pelo controle das reservas de ouro, carvão, estanho e coltan. Agora Mugaruka vem enfrentando as milícias – conhecidas como mai-mai – que detêm o poder sobre a pesca ilegal e a produção de carvão em muitos dos povoados surgidos na margem oeste do lago Edward. Há pouco tempo ele recobrou o controle de seu setor, antes dominado por soldados congoleses ali estacionados para combater as milícias. Como o governo quase nunca pagava os militares, estes eram obrigados a se alimentar com a carne de animais silvestres.

Os esforços de Mugaruka para cumprir os regulamentos não são bem-vistos por dezenas de milhares de congoleses que fugiram das áreas em conflito e se estabeleceram nos vilarejos. Na vila de pescadores de Vitshumbi, seguindo as ordens do administrador, os guardas-florestais despedaçaram e queimaram com querosene vários barcos de pesca irregulares, redes clandestinas e sacos de carvão, sob o olhar amargurado dos moradores. Em um barco de pesca com marcas de balas, ele nos conduz até o vilarejo de Lulimbi, e de lá seguimos de carro até o rio Ishasha, que assinala a fronteira com Uganda, em que, desde 1976, 96% da população de hipopótamos do parque foi abatida e sua carne vendida pelas milícias. Depois rumamos a um setor do parque no monte Tschiaberimu, no qual uma patrulha armada assegura a proteção constante de 15 gorilas-dasmontanhas-orientais, ameaçados pelas milícias e por moradores que foram incentivados por políticos a reivindicar terras no parque.

Rodrigue Mugaruka sabe que é um homem marcado. Os mai-mai – e os empresários congoleses que os financiam – querem o seu fim. “O objetivo é nos expulsar para sempre do parque”, diz o administrador. “Quando apreendemos um barco, esses empresários dizem aos mai-mai: ‘Antes de voltar a pescar, vocês têm de matar um guarda’. Três dos meus homens foram mortos no lago. E, se levarmos em conta a área toda, mais de 20 guardas-florestais já foram assassinados.”

Em janeiro de 2011, os homens de Mugaruka foram alvo de uma emboscada, na qual milicianos usaram um lança-granadas e mataram três guardas-florestais e cinco soldados do Exército congolês. Logo depois, as autoridades receberam uma petição, assinada por 100 mil moradores da região, exigindo que a área do Parque Nacional Virunga fosse reduzida em quase 90%. Os signatários davam ao governo três meses para liberar as terras que, segundo eles, lhes pertenciam. Esgotado o prazo, alertava o abaixo-assinado, todos iriam começar a cultivar áreas dentro do parque – e defenderiam as plantações com armas.

“Queremos terra!” Quem exclama isso é um sujeito que se diz chamar Charles, um jovem de 24 anos sentado no tronco de uma árvore recém-abatida, empunhando um facão. Ele não deveria estar ali, na Reserva Florestal Kagombe, em Uganda. Ou talvez ele tenha esse direito. Nada menos que um decreto presidencial interrompeu o processo de despejo daqueles que haviam se instalado em florestas protegidas. Prometer terras é uma excelente maneira de atrair eleitores.

Charles e um punhado de outros jovens estabeleceram-se na mata em 2006. “Vivíamos em uma propriedade dos meus avôs, mas lá tinha gente demais vivendo da terra.” Um grupo de migrantes, os bakigas, começara a se instalar em Kagombe e, quando o órgão federal responsável pelas florestas tentou tirá-los de lá, o presidente de Uganda, Yoweri Museveni, assinou um decreto proibindo a retirada das pessoas. Por isso, políticos locais incentivaram os banyoros, um grupo nativo e do qual Charles faz parte, a tomar posse de terrenos, caso não quisessem ver toda a região de Kagombe invadida por gente de fora.

Charles e seus amigos se apossaram cada um de 3 hectares de floresta e começaram a desmatálos. Ergueram cabanas com telhado de colmo e barracões para guardar alimentos, abriram uma trilha e construíram uma igreja. Plantaram milho, mandioca e batata. Depois foram buscar suas mulheres e começaram a ter outros filhos.

Hoje, Charles é um dos 3 mil moradores da reserva, que virou uma terra devastada. O prejuízo não é só estético: Kagombe funciona como um elo entre uma série de florestas interligadas que formam um corredor natural para chimpanzés e outros bichos. A destruição dos hábitats contribuiu para o declínio das populações animais.

Como essa terra de abundância decaiu tanto? Quando se mergulha em sua história, o que se constata é que o Rift Ocidental foi moldado por ideias equivocadas acerca de suas identidades étnicas. Os indícios arqueológicos e linguísticos revelam que, já por volta do ano 500, vários povos haviam migrado para a região e formado uma sociedade que falava línguas bantas e cuja economia dependia da agricultura e do pastoreio. No século 15, surgiram reinos centralizados, como o Bunyoro e o de Ruanda, assim como classes exclusivas de pastores, que se diferenciavam dos lavradores pela vestimenta e por uma dieta de leite, carne e sangue. Com o tempo, esses pastores se distinguiram dos demais e ganharam influência.

Quando lá chegou, no fim do século 19, o explorador europeu John Hanning Speke ficou assombrado ao ver reinos bem organizados, que contavam com cortes e diplomatas. Ele presumiu que a elite de pastores, conhecidos como himas ou tutsis, era uma raça superior de origem nilótica, oriunda da atual Etiópia, que invadira a região dos grandes lagos e subjugara o que, para ele, seria a população nativa inferior, constituída de lavradores bantos, como os hutus. “Os Estados dos grandes lagos contestavam as crenças raciais depreciativas [dos europeus] a respeito da inteligência e da capacidade dos africanos”, comenta o arqueólogo Andrew Reid. A ideia de uma invasão nilótica era uma maneira de explicar a existência de reinos tão complexos no coração da África. Só havia um problema: ela não tinha nenhum fundamento.

Isso não impediu que os tutsis e outros grupos elitistas adotassem esse relato de suas origens exóticas para reforçar suas diferenças em relação à maioria hutu. Depois que a África Oriental foi dividida entre as potências europeias no fim do século 19, os alemães, e depois os belgas, mostraram-se mais do que dispostos a cooptar o que parecia ser a hierarquia social natural, privilegiando a suposta superioridade da minoria tutsi.

A despeito das muito citadas diferenças físicas entre os dois grupos – os tutsis seriam mais altos, com pele mais clara e lábios mais finos que os hutus –, era tão difícil distinguir os dois grupos, que, em 1933, os belgas tiveram de recorrer às carteiras de identidade: os 15% que eram donos de rebanhos de gado ou exibiam certas características físicas foram definidos como tutsis, ao passo que todo o restante da população virou hutu. (Às vezes, membros de uma mesma família acabaram em grupos distintos.) Esses documentos, oficializando um sistema de castas que dividia em duas a mesma população, acabariam sendo usados no genocídio de Ruanda como critério para definir quem seria massacrado e quem seria poupado. No início da década de 1960, quando as potências colonizadoras concederam a independência a esses países, os conflitos étnicos entre tutsis e hutus já haviam provocado uma série de ondas de assassinatos e retaliações.

Mas o genocídio de Ruanda não se explica apenas pelo ódio étnico. Nos últimos anos do século 20, já estava claro, e de forma alarmante, que na realidade não havia recursos suficientes para sustentar todos os que viviam no Rift Ocidental. O crescimento demográfico coincidiu com uma queda nos preços do café e do chá nos anos 1980, e o consequente empobrecimento exerceu pressão ainda maior sobre o uso da terra. Na época, um país como a Holanda tinha uma densidade demográfica equivalente à de Ruanda, mas por outro lado contava com uma agricultura mecanizada e de alto rendimento. Já em Ruanda, onde predominava o cultivo de subsistência, a única maneira de produzir mais alimentos estava no uso de terrenos cada vez mais marginais. Na década de 1980, todo hectare de terra arável fora dos parques estava sendo cultivado. Os filhos passaram a herdar lotes cada vez menores. Os solos foram esgotados. As tensões aumentaram.

Vários estudiosos, entre os quais o historiador francês Gérard Prunier, estão convencidos de que a escassez de terra criou as condições para os massacres. O genocídio proporcionou aos hutus desprovidos de chão para o cultivo a justificativa da qual precisavam para iniciar uma guerra de classes. “Ao menos em parte, o motivo pelo qual [o genocídio] foi encampado pelos lavradores comuns […] era o sentimento de que havia gente demais para pouca terra”, notou Prunier no livro The Rwanda Crisis, “e que, com a diminuição da população, restaria mais terra aos sobreviventes.”

O povoado de Shasha, no leste do Congo, tornou-se uma lúgubre encruzilhada no Kivu do Norte, um local de passagem para grupos armados sedentos de terras, minérios e vingança. As minas do leste da RDC encontram-se quase todas sob o controle desses bandos – paramilitares hutus e tutsis, milícias, tropas do Exército –, que invadem Shasha em ondas de violência.

Derramando lágrimas silenciosas, um fiapo de voz, uma mulher chamada Faida recorda o que lhe aconteceu há um ano. Faida traz na mão a carta que recebeu do marido, exigindo que deixasse a casa, temeroso que ela houvesse contraído o vírus HIV dos homens que a violentaram.

Naquele dia fatídico, Faida seguia pela estrada que sempre percorre depois de se esfalfar nas plantações de amendoim. Ela caminhava uma hora e meia até o mercado de Minova, amendoins às costas, e depois voltava para casa com lenha para o fogão. Pertencente ao grupo étnico dos hundes, Faida estava com 32 anos, era casada, tinha seis filhos e por 16 anos fora essa a sua rotina. Ela estava convencida de que ninguém iria atacar uma mulher em plena luz do dia.

Os três homens eram rebeldes hutus. Ela tentou correr, uma missão difícil com o fardo nas costas. Os homens então lhe disseram que escolhesse entre viver e morrer, e a arrastaram até um pasto. Depois a abandonaram ali, desacordada.

Hoje ela mora com os filhos na casa de vizinhos, e não consegue mais trabalhar. Seu marido casou-se de novo. Ela ainda carrega graves sequelas físicas do estupro. “Estou sofrendo muito”, diz. “Por favor, ajude-me com algum remédio.”

Em torno de 10 mil pessoas vivem em Shasha, o dobro do que havia em 1994, e a história do vilarejo é a mesma de todo o leste do país. Um reduto hunde desde a Antiguidade, Shasha começou a receber hutus na década de 1930, trazidos pelos colonos belgas como mão de obra para as suas fazendas. Mais tarde, na esteira do genocídio de 1994, milhares de outros hutus chegaram. Os litígios por causa de terras se acirraram e muitas vezes eram resolvidos a bala. A enorme riqueza mineral da região só agravou a situação.

Segundo estimativa de Marie Gorette, uma defensora das mulheres em Goma, mais de 800 foram estupradas só no vilarejo de Shasha. A idade delas varia de 9 meses a 80 anos. Uma tarde, me sento com Marie em uma choça enquanto as mulheres entram, uma de cada vez, para contar suas histórias. Odette revela o que lhe aconteceu apenas dez dias antes – seu filho de 12 anos a encontrou inconsciente na plantação de mandioca onde trabalhava ao ser atacada. Outra mulher, de 42 anos, relata como os rebeldes tutsis congoleses irromperam em sua casa quatro anos atrás, levaram todo o dinheiro da família e a estupraram. “Mas que isso fique entre nós”, suplica ela, com inocência, e noto, com tristeza, que só me contou a história porque acha que posso ajudá-la.

Cerca de 200 mil mulheres foram estupradas na RDC entre 1996 e 2008, e mais de 8 mil nas províncias orientais de Kivu do Norte e Kivu do Sul apenas em 2009. E, apesar da atenção internacional após uma visita à região feita pela secretária de Estado americana Hillary Clinton, os crimes continuam. “Para eles, o estupro é uma arma para destruir uma geração”, diz Marie Gorette.

Viajo pelo interior de Ruanda quando o meu carro quebra. Um homem estaciona ao lado, vê a fumaça que sai do motor e me oferece uma carona até Kigali, a uns 100 quilômetros dali. “Se isso acontecesse no Congo, você estaria em maus lençóis”, comenta rindo.

Samuel tem 41 anos e, embora viva na comunidade agrícola de Rwamagana, sua vocação é a carpintaria. Pelos padrões locais, a família de Samuel é pequena. “Tenho apenas quatro filhos”, diz. “Mas acho que é o ideal.” Ele gasta 650 dólares por ano para manter cada criança na escola. “Acredito que estudar é a solução. Quem é ignorante não consegue arrumar trabalho.” O homem de rosto largo sorri e diz: “Estou otimista em relação ao país. Acho que o futuro vai ser melhor.”

Não é desprezível o fato de esse país, no qual as ansiedades e os ressentimentos do Rift Ocidental descambaram em um genocídio atroz, ser nos dias atuais um farol de esperança na região. Em Ruanda, o presidente Paul Kagame expulsou os hutus que lideraram a matança e ajudou a instalar um regime tutsi que se mantém no poder. Embora reconheçam que Kagame trouxe estabilidade e crescimento econômico, historiadores consideram seu regime uma autocracia que privilegia a minoria tutsi. Ele também foi alvo de críticas por repressão aos dissidentes e abuso dos direitos humanos, assim como pelo uso de grupos paramilitares no desvio de riquezas minerais do leste da RDC para Ruanda – um contrabando que sustenta seus planos desenvolvimentistas.

Seja como for, é inegável a longa lista de êxitos alcançados por Kagame em um país tão pobre. Hoje, Ruanda é uma das nações mais seguras e estáveis nessa parte da África. As estradas foram pavimentadas, os campos estão bem cuidados e o governo lançou ambiciosa campanha para preservar o pouco que sobrou das florestas. Em junho deste ano, foi aprovada uma lei que assegura compensação financeira a toda cabeça de gado – ou ser humano – ferida ou morta por animais selvagens. E centenas de milhares de hectares que pertenciam a fazendeiros abastados foram redistribuídos entre os cidadãos em 2008, antes da reeleição de Kagame em 2010 – embora o presidente e vários de seus aliados influentes continuem a desfrutar de imensas propriedades.

Ao contrário de Uganda, cujo presidente Museveni afirmou que a taxa de fertilidade elevada é um instrumento para a geração de mão de obra produtiva, Ruanda vem tentando controlar a fecundidade com agressivos programas de planejamento familiar. Porém, mesmo quando a taxa de fecundidade cair abaixo do nível de reposição, o que vai ocorrer por volta de 2050, a população irá triplicar em relação ao que era antes do genocídio de 1994. Entre os ruandeses, 43% têm menos de 15 anos, 30% são analfabetos e 81% vivem no campo. Para alimentar essa população crescente e proteger a fauna que sobrou nos parques, Ruanda terá de descobrir como produzir mais alimentos nas poucas terras disponíveis.

 
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Posted by on November 9, 2011 in Africa

 

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