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China – uma reflexão

28 Nov

Vou falar um pouco sobre a China. Mas o que tem a ver com um blog de uma viagem à África? Bem, tem a ver sim, e eu já tinha feito o comentário de que a China está no meio de uma nova colonização no continente africano. Mas vamos lá, vou começar lá de trás, da minha primeira ida à China, em 1987.

Estive visitando Hong Kong, que na época nem era China (só foi devolvido à China em 1997) ainda. Resolvi comprar uma daquelas excursões de 1 dia para irmos até Cantão (hoje chamada Guangzhou). Era uma cidade grande, no sentido de que tinha mais de 1 milhão de habitantes. O veículo predominante era a bicicleta, e apesar de estarmos na década de 1980, parecia estarmos na década de 1930. Um atraso só. Era inclusive o motivo pelo qual as pessoas pagavam 100 dólares só para ver como a China era atrasada e diferente do resto do mundo. Equivale ao que as pessoas fazem hoje ao visitar a Coréia do Norte ou Cuba.

Hoje Guagzhou tem mais de 7,5 milhões de habitantes, virou a principal cidade da província de Guangdong, que tem 83 milhões de habitantes, e 7 cidades com mais de 1 milhão. Foi lá, alguns anos depois, o primeiro experimento capitalista na China, onde formaram uma ZPE, Zona de Proteção Econômica, tipo Zona Franca de Manaus, só que obviamente com muito mais sucesso do que aqui.

A minha segunda ida à China foi em 1991, e nessa vez eu passei quase 1 mês por lá. Saí de Hong Kong e fui até Beijing (antiga Peking) por etapas, utilizando vários meios de transporte: barco, trem, ônibus e avião. Era ainda muito parecido com o que eu vi em 1987, isto é, muito atraso, muita pobreza, pouca infraestrutura. Me lembro que em Beijing eu aluguei uma bicicleta, e com isso podia visitar a cidade quase toda. Havia poucos carros nas ruas, as bicicletas é que mandavam no trânsito. Havia pouquíssimos prédios, todos eles antiquados, e a infraestrutura era precária. Os trens eram antigos, as estradas horrorosas, o Brasil parecia país de primeiríssimo mundo comparando com os padrões chineses da época.

A terceira vez foi em 1995, e essa foi bem diferente das outras duas. Estava no Nepal, e queria visitar o Tibet. O Tibet é considerado pela China uma província como qualquer outra. Foi invadido em 1950 e até hoje não reconquistou sua independência. E nem vai. Primeiro que nunca houve nenhum motivo econômico para que nenhuma potência estrangeira peitasse a China sobre o caso. Agora então que a China se transformou em uma potência mundial, econômica e militar, é que as chances são zero de isso acontecer. O que eu vi lá foi uma sistemática política de eliminar um povo e uma cultura, e substituir pelo povo e pela culturas chineses. Enquanto que no resto do país existe a política do filho único, no Tibet as famílias chinesas são recompensadas se tiverem mais filhos. Há também uma política de incentivo à migração de chineses de qualquer parte do país para o Tibet. As mulheres tibetanas sofrem esterilização forçada. Naquele ano, 1995, Lhasa, a capital tibetana já era praticamente uma cidade chinesa. Vista de cima, lá do Palácio Potala, o mais lindo do mundo visto de fora, via-se claramente um bairro tibetano, cercado por um mar de bairros chineses. Os mais de 3.000 monastérios tibetanos do país foram reduzidos a menos de 10, que só permaneceram de pé para incentivar a indústria do turismo, mas nada que atrapalhe o projeto de tornar o Tibet uma província irremediavelmente chinesa, o que parece que já aconteceu. O ponto final nesse projeto foi a construção da ferrovia que liga o Tibet ao resto da China. Tive a oportunidade de ler bastante sobre a história do Tibet quando estava por lá, e realmente fiquei revoltado com o fato de tudo isso estar acontecendo nas barbas do mundo inteiro, que prefere ignorar, a se indispor com os chineses.

Quando fui à Europa nas primeiras vezes, na década de 1980, nos impressionava quando víamos tantos japoneses em todos os pontos turísticos. Foi antes da longa estagnação da economia japonesa, e o país estava bombando. Brincávamos dizendo que o Japão era tão superpovoado, que os japoneses tinham que viajar para fora pois não cabia todo mundo na pequena ilha. Ou que estava tão caro por lá, que era mais barato viajar para o exterior do que dentro do Japão. Lembra um pouco a situação atual no Brasil, onde é mais barato passar férias nos Estados Unidos do que no Nordeste.

Voltando à 2011, além do que vi na África, acrescento o que eu vi nesta última ida à Europa. Em todos os pontos turísticos, os chineses eram maioria, mas maioria mesmo, nos trens principalmente. Sei identificar a diferença dos chineses para outros orientais, pois reconheço o sotaque, e às vezes pela maneira espalhafatosa e engraçada com que eles se posicionam para tirar fotos. Lembro-me de ter tirado fotos dos chineses tirando fotos, pois para mim, eram mais interessantes do que as próprias fotos que eles estavam tirando. Eles substituíram os japoneses da década de 1980, mas agora a tendência é que a situação não se reverta tão cedo.

Tudo isso para fazer algumas constatações:

Os chineses, em pouco mais de 20 anos, sairam da idade da carroça para se tornarem a segunda economia do mundo, e em torno de 30 anos serão a primeira. Hoje um dia eles são considerados a locomotiva da economia mundial, se apenas diminuirem sua taxa de crescimento, o mundo inteiro entra em recessão, Brasil junto, já que eles se tornaram nos últimos anos o nosso maior parceiro comercial. Por essa razão, são respeitados e temidos por todo mundo, e como têm um real poderio econômico, estão de fato conquistando vários projetos mundo a fora, e colocando seus pés em vários países, de uma forma tão clara e enfática, que tornará inviável um retrocesso no futuro. Isso sem falar que se tornaram o maior poluidor do mundo atualmente, sem se preocupar com as consequências. Quem esteve em Beijing nos últimos anos sabe do que estou falando. Me lembro no ano de 2008, a grande quantidade de reportagens sobre a poluição em Beijing, que tornava o ar irrespirável, e a visibilidade mínima. Quem vai pressionar o governo chinês a controlar essa poluição?

Suas políticas de ocupação e de direitos humanos são tolerados de uma forma até revoltante, já que por muitíssimo menos os Estados Unidos e OTAN já invadiram e/ou declararam guerras a outros países menos musculosos. Aí vem o dilema: é para ficar com raiva dos chineses ou do governo chinês? Afinal, nem protestar o povo chinês pode, quanto mais escolher sesu governantes. Na minha época de MBA na Bélgica, tinha um colega chinês, o Li Lei, gente finíssima. Quando fui à Beijing em 1991, a família dele me recebeu no aeroporto, me acolheu em sua casa (até sermos expulsos pela polícia secreta chinesa), e me deu toda a atenção possível. Foi muito legal mesmo. Na época, criei um carinho especial pelo povo chinês. Isso antes de ir ao Tibet, claro.

Tendo estado na África já algumas vezes, feito safaris e me interessado pela vida animal, não consigo deixar de mencionar 3 espécies que têm sido foco de reportagens na mídia, que alerta para a diminuição dramática em suas populações. São elas o rinoceronte, o tubarão e o tigre. É de conhecimento de todos que o chifre do rinoceronte, os testículos do tigre e as barbatanas do tubarão se tornaram mercadorias de alto luxo, com preços que ultrapassam as dezenas de mihares de dólares por quilo, o que torna extremamente atraente para os caçadores e contrabandistas. Isso tudo por conta da cultura chinesa, que previlegia tradições milenares, ignorando suas consequências no mundo atual.

Tudo isso para meter o pau nos chineses? Nem eu mesmo sei. Parece que sim, mas não são os únicos com telhado de vidro. Apenas têm hoje o maior telhado no momento. Acho que é apenas um incentivo à reflexão.

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Posted by on November 28, 2011 in Africa

 

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