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Santiago de Compostela – capítulo 6

15 Mar

Dia 13

Ontem depois que escrevi o artigo lá na caféteria, a tormenta continuou. Tinha vento de mais de 100 km/h, e não parou de chover. Ficamos ilhados até às 10 da noite, quando fomos dormir. Pelo menos deu para falar com a família e com meus pais e irmão pelo Skype.

Fiquei pensando, depois de tanto sacrifício, terminar a viagem com este clima, parecia um verdadeiro anticlimax. Mas se tinha que ser assim, que fosse.

Dormi muito bem, e quando acordei a surpresa: o céu estava claro, sem uma nuvem no céu. Pulamos da cama, nos aprontamos, e saímos para Santiago (afinal eram apenas 4 kms).

Chegamos e fomos direto para a fila pegar a Compostelana, que é o diploma de peregrino. Ficamos uma hora na fila, mas excitados por completar a peregrinação. Depois disso fomos para a catedral, eram 11 horas da manhã, e logo peguei um lugar para ver a missa das 12. Já estava cheio, e resolvi esperar. Quando eram 11:50, olhei para o outro lado da catedral, e vi uma carinha sorridente, olhando para mim. Era o José!!! Chamei ele, que me deu um forte abraço, e assistimos a missa juntos. Incrível.

compostelana

compostelana

catedral Santiago de Compostela

catedral Santiago de Compostela

A missa começou como outra qualquer, mas logo vi que era especial. Hoje é dia de S. Francisco de Assis, e houve uma homenagem aos peregrinos, que me emocionou, principalmente vendo aquela gente toda que sofreu tanto para chegar até aqui. Sem sentir, estava chorando, e vi que eu mesmo tinha realizado algo importante.

Me lembrei de um livro que li na adolescência, Ilusões, de Richard Bach, que começa com uma lenda de uma civilização que habitava o fundo de um rio. As pessoas viviam agarradas nas pedras, e tinham medo de soltá-las, pois não sabiam o que tinha mais a frente no rio. Um personagem decidiu soltar, e começou a descer o rio. As pessoas davam as mãos para ele, pedindo para ele agarrar, já que ele podia se machucar. Mas como elas sabiam que ele podia se machucar, se nunca tinham descido o rio? No caminho, só tem uma direção (para Santiago), então nada tem volta, quando decidimos ir em frente, deixar uma cidade, um albergue, ou umas pessoas, tudo podia acontecer. Inclusive encontrar as mesmas pessoas das quais nos despedimos uma ou mais vezes.

Santiago é muito bonita, o centro histórico é muito rico. Vale à pena ficar mais um pouco. Tem muito turista além dos peregrinos. Amanhã vamos ver a missa de novo.

Bem, o anticlimax de ontem virou um verdadeiro climax hoje. Para completar, encontramos no albergue o resto da tropa de elite. Dois deles já tinham ido embora e voltaram, a Theresa Cruise e o Gianlucca. Hoje vamos jantar todos juntos.

jantar no albergue Santiago de Compostela

jantar no albergue Santiago de Compostela

 

Day After

No dia anterior eu tinha pensado que um filme americano sobre minha peregrinação não poderia terminar daquele jeito, em Monte de Gozo, em meio a uma tormenta.

Bem, ontem o dia foi ótimo, mas para encerrar, só mesmo com um jantar no restaurante do albergue, onde quase todos os “atores” deste fime participaram: a tropa de elite toda, o casal simpático, o casal José (colombiano) e a Petea (búlgara). Todos comeram pasta (não de dente) e beberam 7 garrafas de vinho. Esse sim foi o verdadeiro final de filme americano.

Como o filme acabou, o dia amanheceu hoje chovendo e com frio. Theresa e Gianlucca se foram, e eu fui rever a missa do peregrino na Catedral (uau, 2 missas em 2 dias!!!). Claro que não teve a mesma emoção de ontem.

Aliás, meu encontro com o José ontem não foi apenas coincidência. Ele chegou à Santiago no domingo, dia da tormenta. Foi pegar a compostelana dele, e perdeu a chave da bicicleta. Não conseguiu destrancá-la, e foi para casa. Voltou no dia seguinte com um serrote, e quando foi serrar o cadeado, percebeu que minha bicicleta estava estacionada ao lado da dele. Eu não reconheci a dele, mas ele reconheceu a minha. Por isso decidiu me procurar na catedral. Outro motivo é que domingo é o dia mais cheio para a missa, e ele não conseguiu assistir à missa.

 

Bem, cada um com seu caminho diferente, tem gente que começa o caminho em León, em Ponferrada, no Cebreiro, etc. Não tem diferença, eu mesmo que comecei em Roncesvalles (quase 800 kms) não fiz o primeiro trecho(de Saint Jean Pied du Port, na França, até Roncesvalles). É uma tremenda subida, não se recomenda fazer de bike (o melhor é deixar a bike em Roncesvalles e fazer à pé). A partir de Ponferrada fica claro que o número de peregrinos aumenta muito. Porém, como já disse antes, é um esforço enorme, e respeito todos que fazem. Inclusive aqui em Santiago vi muita gente que fez o caminho português.

Sobre a Espanha, posso dizer 2 coisas. Uma é que o espanhol pode ser em geral muito simpático e atencioso em cidades pequenas, e muito grosso e mal educado em cidades maiores. Esta foi a minha experiência. Outra coisa que me surpreendeu é a quantidade de lixo pelo caminho. O caminho é super bem sinalizado, com vários locais construídos para descanso, e lanches, todos com latas de lixo. O problema é a coleta deste lixo, pois invariavelmente estavam transbordando, e com muito lixo em volta. Nos bares a mesma coisa, parece que limpam o balcão e o chão só no final do expediente (o episódio do José jogando a garrafa de plástico montanha abaixo é ilustrativo).

Quanto à segurança, posso dizer que não tive nem ouvi falar de nenhum problema de roubo ou furto em todo o caminho. Só para registrar, quando já estava saindo do albergue de Burgos, decidi dar uma última passada no banheiro. De lá saí do albergue, e percebi que faltava o Fanuel (Manuel com F). Voltei para dentro do albergue, e perguntei à ele se estava tudo OK, ele disse que sim. Quando saia de novo, vi uma pochete igual à minha no balcão da recepção, que estava vazia. Aí eu me dei conta que era a MINHA pochete, com o passaporte e todo o meu dinheiro. Eu a tinha esquecido no banheiro, e um casal alemão achou-a e colocou-a ali. Qualquer um poderia ter pego. Se não volto para o albergue para checar o Fanuel, não sei o que teria sido da viagem.

De novo sobre o caminho, só se perde quem quer. Fala isso quem se perdeu 3 vezes nos primeiros 4 dias. O fato é que se você não vê uma seta amarela em 500 metros, pode voltar, pois errou de direção. Ou a seta amarela, ou a concha, que é o símbolo do caminho.

Sinalização no caminho

Sinalização no caminho

É claro que não esperava encontrar em Santiago um monge me esperando com todas as respostas para meus questionamentos. Mas no caminho, além de termos tempo para refletir, tudo o que a gente vê, os peregrinos, os locais, etc nos fazer pensar muito se devemos e podemos melhorarmos. Não me lembro do livro do Paulo Coelho, acho até que vou relê-lo quando voltar, por curiosidade. Mas não houve qualquer influência na minha peregrinação. É interessante ver o quanto cada um desejou e programou fazer esta peregrinação, eu que decidi em cima da hora fico até sem jeito, mas acho que não perde o valor.

Agora que chegou a hora de encerrar a viagem, agradeço à todos que acompanharam, mandaram comentários ou e-mails, pois isso foi um fator motivador para me fazer pensar antes de escrever, e também de saber que não estava sozinho. Até este momento foram 553 visitas ao blog, um número inimaginável para mim antes começar a escrevê-lo. Quando voltar vou fazer um resumo geral, e colocar um link com as fotos. Fica aqui apenas um até breve!

 

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