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Monthly Archives: March 2015

Resumo da Viagem – Irã

Todas as vezes que me perguntaram para onde eu estava indo, e eu mencionava o Irã, só tinha 2 reações : ou a pessoa reagia com frases tipo “tá maluco?”, “não tem um lugar menos perigoso?”, “o que que você tem na cabeça? nada?”, etc, ou a pessoa ficava em um silêncio total, mas pensava em algumas destas perguntas. Não tive nenhuma reação do tipo : “que legal”, “também queria ir”. Com exceção da minha mãe, que queria e ainda quer muito ir para lá. Mas o fato é que apesar do tal frio na barriga, de ir para um lugar considerado sinistro, de difícil acesso, onde há poucos turistas, no fundo eu sabia que ia adorar, que ia conhecer um país onde a grande atração é o povo, além da cultura milenar. Eu já tinha lido muito e ouvido pouco sobre o Irã, e eram unanimidade as opiniões, principalmente sobre as experiências positivas. Mesmo assim, eu confesso que me surpreendi. Não só com a amabilidade do povo, não foi uma grande surpresa, mas mais do que eu esperava, mas também com a facilidade de se viajar por lá. Tudo é tranquilo, transportes, hotéis, informações, trocar dinheiro, comer, etc. Mesmo nos lugares mais remotos que visitei se consegue se virar. É verdade que fui nos lugares turísticos, ou em cidades grandes, como Tabriz, e assim ficou mesmo mais fácil.

Política : como eu já havia escrito antes, política é um assunto extremamente delicado no Irã. Claro que a maioria das pessoas quer falar sobre política, sobre o que acontece fora do Irã, das perspectivas do país, e principalmente quer saber o que os estrangeiros pensam do país. Mas o fato é que para se ter esta experiência tão positiva no país, o viajante deve esquecer de política. Pois caso contrário, não vai gostar do que vai ver. O povo é extremamente reprimido, e principalmente controlado. Nas ruas, não passa nada sem o controle do governo. A religiosidade extrema às vezes esconde um povo que quer dar seu grito de liberdade, quer tirar o véu da cabeça, quer colocar um bom par de bermudas (principalmente no verão escaldante), quer interagir com outros povos, quer namorar na rua, quer beber (será !?), enfim, uma liberdade absolutamente inexistente no país. Até em Cuba eu vi mais liberdade, apesar de todo o controle que lá existe também. Pelo menos em Cuba as pessoas podem se divertir. No Irã, somente entre quatro ou mais paredes. O resumo que eu fiz é bom adequado : se você não tem intenção de derrubar o governo, pode-se tudo no Irã, desde que escondido, ou que você suborne a polícia. Agora, se tiveres segundas intenções com relação ao governo, tome cuidado, sua vida corre perigo. Uma pena!

Povo : medalha de ouro total. Poucas vezes fui tão bem tratado, com tanta simpatia genuína. É claro que há outros povos que também merecem medalha de ouro, poderia aqui citar alguns (Vietnã, Bangladesh, Líbano, Etiópia e Uganda são alguns deles). Experiências maravilhosas, de gente que queria nos conhecer, nos ajudar, sem querer nada em troca. Acho que muitos fazem porque são assim outros por conta da religião, e alguns por que esperam que quando voltemos para casa, passemos adiante uma opinião positiva sobre o país e o povo. Eles reconhecem que são vistos fora do país como um bando de lunáticos, terroristas, que odeiam à todos e tudo que vem do ocidente. Nada mais errado. Totalmente o contrário. Estou escrevendo tudo isso, tentando não me lembrar dos excelentes papos que tive com o Sayeed, aí eu fico mais parcial.

Comida : quando chegamos ao Irã, meu estoque de chocolate já estava no fim, e realmente não precisamos nem comprar mais. Além da comida ser ótima e barata, existe uma fábrica iraniana de Magnum, aquele sorvete delicioso, que no Brasil é o mais caro do freezer. No Irã o gosto do sorvete é o mesmo, e é muito barato. Então eram 2 ou 3 por dia. e meu regime foi pro espaço. Claro que comi muito kebab, e aquele pão árabe que eu adoro. Nesse ponto o Leo sofreu um pouco, pois sendo vegetariano, teve que batalhar um pouco mais para encontrar um menu adequado. Não tive nenhuma inveja dele.

Hotéis : ficamos em hotéis o tempo todo. O de Tabriz era mais simples, mas os outros foram fantásticos. O de Yazd não tinha luxo no quarto, mas o ambiente do hotel era mágico, muita troca de informações e experiências. Foram os melhores hotéis da viagem. O mais caro foi o de Teerã, que custava US$ 90 para um quarto triplo, com café da manhã. Uma pechincha.

Transporte : muito fácil de pegar. Primeiro o excelente trem de Tabriz até Teerã. Depois pegamos ônibus VIPs, com ar condicionado e tudo. Alguns táxis também, pois para ir até Abyaneh, como a Angélica diz, só de táxi. Dentro das cidades testamos ônibus e metro (em Teerã). A experiência de andar de ônibus, onde homens andam na frente e mulheres atrás foi estranha, e para mim meio constrangedora. Não gostei desta discriminação. No metro de Teerã é assim também, os últimos carros são para mulheres ou casais. Transporte foi um dos pontos altos da viagem, certamente.

Vistos : o visto foi tirado em Brasília, sem eu ter posto os pés na embaixada. Muito simples, sem burocracia. Para quem chega de avião, é possível tirar no aeroporto, mas como não era nosso caso (entramos por terra), tivemos que tirar antes. Graças à amizade do Lula com o Ahmadinejad, tudo ficou fácil para brasileiros.

Segurança : 200%. Um dos lugares mais seguros que já visitei. Claro que tudo pode mudar no futuro. Eu disse a mesma coisa quando visitei a Síria. Mas hoje posso afirmar que não há qualquer chance de acontecer nada de violento. Arrisco dizer que também são mínimas as chances de se ter algo furtado em qualquer lugar do país. Me senti assim o tempo todo.

Outros viajantes : como escrevi antes, não havia tantos turistas assim. Claro que americanos não são bem vindos, mas tem um pouco mais de europeus que no Cáucaso. Principalmente em Isfahan, que é o lugar mais turístico. vimos grupos de italianos, espanhóis e alemães por lá.

Planejamento : para o pouco tempo que tínhamos, acho que vimos o principal. Não acho que perdemos muitos lugares, apenas fiquei com vontade de sair um pouco da rota turística, conhecer vilarejos que não tivessem turistas. E ir até Mashhad, que é a cidade mais religiosa do Irã. Mas fica no nordeste do país, perto da fronteira com o Turcomenistão, e ficava bem longe da nossa rota. Pena.

Companhia : bem, a do Khouri durou no Irã por 2 cidades, Tabriz e Teerã. Lamento, pois eu sabia que ele queria muito continuar a viagem. Sobramos eu e o Leo, que me aturou até o final. Já veterano de outras aventuras, não tivemos problemas, quanto mais em um lugar tão fácil de viajar. Voltamos com o eterno gostinho de querer mais, de começar a pensar nas próximas viagens. É realmente uma doença incurável (Graças à Deus!).

 
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Posted by on March 10, 2015 in Caucasus, Cáucaso, Iran, Irã

 

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Resumo da Viagem – Cáucaso

Chegou a hora de resumir a viagem. O certo é dividir em 2 capítulos, um sobre o Cáucaso e outro sobre o Irã, pois são muito distintos, apesar de fazerem fronteira. Isso por si só já é incrível, como pode? Tudo é tão diferente, e separado somente por uma ponte. Achei fascinante passar fisicamente por essa fronteira entre 2 mundos tão diferentes entre si.

Mas vamos lá, comecemos pelo Cáucaso. Primeira pergunta : onde fica, Ásia ou Europa? Geograficamente falando, a cadeia de montanhas separa a Europa da Ásia. Então a Rússia fica na Europa e o resto fica na Ásia. Difícil imaginar Tbilisi como uma cidade asiática. Tem toda a cara de Europa. Erevan idem.

Política : bem, para qualquer viajante minimamente interessado na região, é imperativo estudar um pouco do que aconteceu por lá, mesmo que seja nas últimas décadas. Até para entender a confusão que é atravessar uma simples fronteira, quais que são abertas, e quais que não são. E os vistos? Se tens um carimbo de entrada na Armênia, vais ter problemas no Azerbaijão. Eu que ganhei um carimbo de entrada em Nagorno Karabakh  já sei que sou persona non grata no Azerbaijão. Provavelmente nunca mais serei aceito por lá. Na Abcázia, se entra pela Rússia, só se pode sair pela Rússia. Se entra pela Georgia, só se pode sair pela Georgia. E assim vai. Entender os conflitos também ajuda, o porquê de religiões diferentes, de tanta briga, ódio e desconfiança em um pedaço de terra tão pequeno. Mas é claro que não deixa de ser super interessante e intrigante buscar saber sobre tudo isso, principalmente antes de ir, e depois ver in loco. Conversar com as pessoas, ouvir seus pontos de vista, enriquece mais ainda a viagem. Até porque não é uma região 5 estrelas em matéria de atrações turísticas, então se não tem interesse pela história e cultura, não é o destino ideal. Para mim, uma agradável surpresa.

Povo : neste quesito a medalha de ouro vai para a Georgia, até porque foi o lugar onde mais ficamos. No Azerbaijão foram 2 dias em Baku, uma cidade grande, então é até injustiça. Me lembro do motorista de táxi que me levou de graça do aeroporto até o centro de Baku. Onde mais no mundo isso acontece? Não tivemos nenhuma situação desagradável, em nenhum dos países, fora aquela em Grozny, onde estávamos de bermudas em uma cidade muçulmana e extremamente conservadora. De quem foi a culpa? Claro que nossa. E não posso deixar de mencionar que, apesar de termos perdido muito tempo com a polícia em Vladikavkaz, todos os policiais foram extremamente educados, e não nos intimidaram nenhuma vez.

Comida : aí o bicho pegou. O Guilherme tem estômago de aço, e come até pedra, mas eu tenho minhas restrições. Mesmo assim, sempre acho alguma opção. Confesso que o prato mais tradicional da Georgia tinha chance zero de ser provado por mim, mas me dei bem com outras opções.Sorte minha que existe uma boa influência árabe, e me deliciei com os kebabs em todo o lado. Tomamos bastante cerveja, antes de irmos pro Irã. Em Tbilisi, o fato de temos ficado ao lado do Carrefour nos ajudou bastante.

Hotéis : ficamos em hostel na maioria dos lugares. Não era alta estação, por causa do calor, e também pela falta de turistas, então a maioria nem estava cheio. Baratos e com razoável infra. Todos tinham wifi, muitos tinham café da manhã, e todos eram bem localizados. Só destoou em Vladikavkaz, na Rússia, que definitivamente não é uma cidade turística.

Transporte : pegamos um pouco de tudo. Começamos com trem, depois mashrutkas, que são os táxis comunitários, ônibus intermunicipais, e até carro com guia (em Nagorno Karabakh). Nas cidades pegamos metro, táxi, ônibus, quase tudo que se locomovia. Nenhum stress, fora claro, aquela estrada na Rússia, de Vladikavkaz até Grozny. Aliás, tudo de exceção aconteceu na Rússia.

Custos : esta parte da viagem foi barata. Não extremamente barata, porém bem mais barata que no resto da Europa. Basicamente tudo nesses países é mais barato do que na Europa, comida, transporte, hotéis, passeios, etc.

Vistos : já tinha mencionado que precisamos de visto para o Azerbaijão e Armênia. Tirei o do Azerbaijão em Brasília e o da Armênia em São Paulo (que é de graça). Poderíamos ter tirado na chegada, mas foi bom ter saído de casa com o assunto resolvido.

Segurança : essa questão é complicada. Segurança relacionada a roubos e furtos é total, não tivemos nenhum problema com isso. A questão complexa é relacionada aos conflitos entre os países, aí o bicho pode pegar. Depois que voltamos, houve 2 atentados à bomba em Gronzy, onde estivemos, e um ataque de helicópteros em Nagorno Karabakh, onde também estivemos. Se tivessem acontecido antes de irmos, não sei se a viagem teria acontecido, pois foi bem onde passamos, e a sensação de clima de guerra existe em muitos lugares. Claro que já sabíamos de tudo isso antes da viagem, mas não achava que estava correndo algum risco quando saí de casa. O que todos temiam era o Irã, exatamente o local mais seguro de todos.

Outros viajantes : como escrevi antes, não havia tantos turistas assim. E em locais como esses, os turistas normalmente querem trocar experiências, e informações. Conhecemos pessoas interessantes, não muitas, até porque em um determinado ponto estávamos em 4, e não havia tanta oportunidade assim. Os hostels são os principais locais para se conhecer mais gente.

Planejamento : bem, com o tempo escasso, acho que fizemos o melhor que podíamos. Deixei para trás a região de Mestia, que me pareceu ser a mais legal das que eu não fui. O interior do Azerbaijão também foi esquecido, só que esse vai ficar para a minha próxima encarnação, já que não entro mais naquele país (por conta do carimbo de Nagorno Karabakh no meu passaporte). No mais, vi tudo o que eu queria. Só deixamos a Ossétia do Sul de lado, já que não conseguimos a autorização para entrar lá. Fica para a próxima?

Companhia : excelentes. À 2, 3 ou 4, sempre de alto astral, com pessoas interessantes, viajadas e interessadas. Nada a reclamar. Guilherme já ficou íntimo, foi nossa 2a viagem. O Khouri e o Leo já são veteranos de viajar comigo, já me aturam há décadas, então não teve stress.

 

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