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Category Archives: Abcásia

Resumo da Viagem – Cáucaso

Chegou a hora de resumir a viagem. O certo é dividir em 2 capítulos, um sobre o Cáucaso e outro sobre o Irã, pois são muito distintos, apesar de fazerem fronteira. Isso por si só já é incrível, como pode? Tudo é tão diferente, e separado somente por uma ponte. Achei fascinante passar fisicamente por essa fronteira entre 2 mundos tão diferentes entre si.

Mas vamos lá, comecemos pelo Cáucaso. Primeira pergunta : onde fica, Ásia ou Europa? Geograficamente falando, a cadeia de montanhas separa a Europa da Ásia. Então a Rússia fica na Europa e o resto fica na Ásia. Difícil imaginar Tbilisi como uma cidade asiática. Tem toda a cara de Europa. Erevan idem.

Política : bem, para qualquer viajante minimamente interessado na região, é imperativo estudar um pouco do que aconteceu por lá, mesmo que seja nas últimas décadas. Até para entender a confusão que é atravessar uma simples fronteira, quais que são abertas, e quais que não são. E os vistos? Se tens um carimbo de entrada na Armênia, vais ter problemas no Azerbaijão. Eu que ganhei um carimbo de entrada em Nagorno Karabakh  já sei que sou persona non grata no Azerbaijão. Provavelmente nunca mais serei aceito por lá. Na Abcázia, se entra pela Rússia, só se pode sair pela Rússia. Se entra pela Georgia, só se pode sair pela Georgia. E assim vai. Entender os conflitos também ajuda, o porquê de religiões diferentes, de tanta briga, ódio e desconfiança em um pedaço de terra tão pequeno. Mas é claro que não deixa de ser super interessante e intrigante buscar saber sobre tudo isso, principalmente antes de ir, e depois ver in loco. Conversar com as pessoas, ouvir seus pontos de vista, enriquece mais ainda a viagem. Até porque não é uma região 5 estrelas em matéria de atrações turísticas, então se não tem interesse pela história e cultura, não é o destino ideal. Para mim, uma agradável surpresa.

Povo : neste quesito a medalha de ouro vai para a Georgia, até porque foi o lugar onde mais ficamos. No Azerbaijão foram 2 dias em Baku, uma cidade grande, então é até injustiça. Me lembro do motorista de táxi que me levou de graça do aeroporto até o centro de Baku. Onde mais no mundo isso acontece? Não tivemos nenhuma situação desagradável, em nenhum dos países, fora aquela em Grozny, onde estávamos de bermudas em uma cidade muçulmana e extremamente conservadora. De quem foi a culpa? Claro que nossa. E não posso deixar de mencionar que, apesar de termos perdido muito tempo com a polícia em Vladikavkaz, todos os policiais foram extremamente educados, e não nos intimidaram nenhuma vez.

Comida : aí o bicho pegou. O Guilherme tem estômago de aço, e come até pedra, mas eu tenho minhas restrições. Mesmo assim, sempre acho alguma opção. Confesso que o prato mais tradicional da Georgia tinha chance zero de ser provado por mim, mas me dei bem com outras opções.Sorte minha que existe uma boa influência árabe, e me deliciei com os kebabs em todo o lado. Tomamos bastante cerveja, antes de irmos pro Irã. Em Tbilisi, o fato de temos ficado ao lado do Carrefour nos ajudou bastante.

Hotéis : ficamos em hostel na maioria dos lugares. Não era alta estação, por causa do calor, e também pela falta de turistas, então a maioria nem estava cheio. Baratos e com razoável infra. Todos tinham wifi, muitos tinham café da manhã, e todos eram bem localizados. Só destoou em Vladikavkaz, na Rússia, que definitivamente não é uma cidade turística.

Transporte : pegamos um pouco de tudo. Começamos com trem, depois mashrutkas, que são os táxis comunitários, ônibus intermunicipais, e até carro com guia (em Nagorno Karabakh). Nas cidades pegamos metro, táxi, ônibus, quase tudo que se locomovia. Nenhum stress, fora claro, aquela estrada na Rússia, de Vladikavkaz até Grozny. Aliás, tudo de exceção aconteceu na Rússia.

Custos : esta parte da viagem foi barata. Não extremamente barata, porém bem mais barata que no resto da Europa. Basicamente tudo nesses países é mais barato do que na Europa, comida, transporte, hotéis, passeios, etc.

Vistos : já tinha mencionado que precisamos de visto para o Azerbaijão e Armênia. Tirei o do Azerbaijão em Brasília e o da Armênia em São Paulo (que é de graça). Poderíamos ter tirado na chegada, mas foi bom ter saído de casa com o assunto resolvido.

Segurança : essa questão é complicada. Segurança relacionada a roubos e furtos é total, não tivemos nenhum problema com isso. A questão complexa é relacionada aos conflitos entre os países, aí o bicho pode pegar. Depois que voltamos, houve 2 atentados à bomba em Gronzy, onde estivemos, e um ataque de helicópteros em Nagorno Karabakh, onde também estivemos. Se tivessem acontecido antes de irmos, não sei se a viagem teria acontecido, pois foi bem onde passamos, e a sensação de clima de guerra existe em muitos lugares. Claro que já sabíamos de tudo isso antes da viagem, mas não achava que estava correndo algum risco quando saí de casa. O que todos temiam era o Irã, exatamente o local mais seguro de todos.

Outros viajantes : como escrevi antes, não havia tantos turistas assim. E em locais como esses, os turistas normalmente querem trocar experiências, e informações. Conhecemos pessoas interessantes, não muitas, até porque em um determinado ponto estávamos em 4, e não havia tanta oportunidade assim. Os hostels são os principais locais para se conhecer mais gente.

Planejamento : bem, com o tempo escasso, acho que fizemos o melhor que podíamos. Deixei para trás a região de Mestia, que me pareceu ser a mais legal das que eu não fui. O interior do Azerbaijão também foi esquecido, só que esse vai ficar para a minha próxima encarnação, já que não entro mais naquele país (por conta do carimbo de Nagorno Karabakh no meu passaporte). No mais, vi tudo o que eu queria. Só deixamos a Ossétia do Sul de lado, já que não conseguimos a autorização para entrar lá. Fica para a próxima?

Companhia : excelentes. À 2, 3 ou 4, sempre de alto astral, com pessoas interessantes, viajadas e interessadas. Nada a reclamar. Guilherme já ficou íntimo, foi nossa 2a viagem. O Khouri e o Leo já são veteranos de viajar comigo, já me aturam há décadas, então não teve stress.

 

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Abcásia – um país esquecido por todos (menos a Rússia)

Chegamos cedo em Zugdidi. A maioria dos turistas que chegam aqui, vão para Svaneti, uma região nas montanhas, que dizem ser lindíssima. Aliás, todo o norte da Georgia é separado da Rússia pelo Cáucaso, uma cadeia de montanhas que estabelece a divisão entre a Ásia e a Europa. São vários picos com mais de 5.000m de altitude Da estação, pegamos um táxi até a fronteira com a Abcásia, que fica à 12 kms de Zugdidi, bem pertinho. Vamos agora à mini aula de história e política, sem a qual não dá pra entender o que fomos fazer nesse lugar.

A Abcásia é um país reconhecido por poucos países, a maioria deles também não reconhecidos. Claro que existe um grande patrocinador nessa história, que é a Rússia. Bem a história recente é que houve uma guerra separatista em 1992 e 1993, que matou milhares de pessoas, e fez a população reduzir em 2/3. Hoje cerca de 180.000 pessoas vivem no país. Pela sua localização estratégica à beira do Mar Negro, suas belas praias, e ficar entre a Geórgia e a Rússia, é uma região estratégica. A Rússia reconhece a Abcásia como independente, mas a realidade é que estávamos na Rússia. A moeda é o rublo russo, a língua é o russo, o exército é meio abcásio, meio russo, e os turistas são russos. O dinheiro do país vem da Rússia. Precisa dizer mais alguma coisa?

A Geórgia reconhece a Abcásia como sua, portanto não há controle de passaporte na saída. Depois cruzamos uma longa ponte à pé, até chegarmos à fronteira da Abcásia.

Ponte que liga a Geórgia à Abcásia

Ponte que liga a Geórgia à Abcásia

Sukhumi, a capital do país fica bem no meio do caminho da fronteira sul (com a Geórgia) para a fronteira norte (com a Rússia), que é perto de Socchi, palco da última Olimpíada de Inverno. Da fronteira até Sukhumi são pouco mais de 100 kms, e pegamos um táxi junto com uma tiazinha, que não falava nada de inglês (nem de português). O motorista também não! Como tínhamos apenas uma autorização para entrar no país, tínhamos que ir no Ministério pegar o visto, o que nos permitira sair do país. É claro que virou prioridade. O problema foi descobrir que era feriado nacional (existe feriado regional na Abcásia?), e tava tudo fechado. Tínhamos que deixar para o dia seguinte. Neste trecho do país, da fronteira até a capital, só o que vimos foram prédios destruídos e/ou abandonados, quase ninguém nas ruas, quase nenhum carro, e muitas, muitas vacas perambulando pelo meio da estrada.

Prédios destruídos e abandonados

Prédios destruídos e abandonados

A procura por lugar pra dormir foi meio bizarra. Tínhamos indicação de um lugar, mas estava cheio. Quase ninguém fala inglês neste país, lembrem que os turistas são todos russos, pra que aprender o inglês? Como era feriado, e cedo, não havia uma alma viva nas ruas. Foi um pouco complicado, mas na sorte achamos um hotel fantástico. Com um pouco de negociação, chegamos à um preço bem razoável, mas ainda caro para nossos padrões. A questão é que o quarto era maravilhoso, espaçoso, com varanda, um luxo só. O dono do pedaço era gente finíssima, falava inglês, e cuidava do local com muito carinho, bem detalhista.

Mas não podíamos perder tempo, e logo caímos na rua. Fomos de táxi para a estação de trem, pois de lá sairia um ônibus que iria até a fronteira norte. Nosso objetivo era visitar o Monastério Novy Afon. Ele fica à 20 kms de Sukhumi, e a estrada parece uma Rio-Santos. Novy Afon fica no meio de um morro, de lá se tem uma vista belíssima, para a praia em frente, com seus turistas russos. Parecia outro país, ao norte de Sukhumi, vibrante, nada destruído, cheio de turistas e movimento.

Novy Afon

Novy Afon

Praia em frente à Novy Afon

Praia em frente à Novy Afon

Voltamos de ônibus para Sukhumi. Era ainda final de tarde, e a orla estava bem vazia, não sei se pro conta do feriado.

Orla de Sukhumi

Orla de Sukhumi

Também não sei se por conta do feriado, mas não conseguimos muitas opções para o jantar, acabamos jantando no que parecia ser o mais popular da cidade, de frente pro mar. Pra quem achava que ia passar perrengue na Abcásia, ficamos em um hotel quase de luxo, e jantamos no melhor restaurante. Saiu melhor do que a encomenda. Chegamos do jantar e o dono do hotel nos esperava com bolinho e chá. Que mordomia.

No dia seguinte acordamos cedo, e já tinha um banquete nos esperando. Nada de buffet, até porque além de nós, só tinham 3 ciclistas poloneses, que tinham perdido o dia esperando o visto para poder sair do país. Tudo feito na hora, no capricho.

Fomos buscar nosso visto, e de lá para a estação de ônibus, pegar um transporte de volta para a fronteira.

Visto Abcásia

Visto Abcásia

O que posso dizer sobre este país? Aliás, é um país? Eu penso que sim. Eles têm seu próprio governo, exército, idioma, autonomia administrativa, claro que tudo isso com uma mãozona da Rússia, mas não deixa de ser um país. A Geórgia nunca mais vai tê-lo de volta, essa é uma realidade. Principalmente depois da confusão com a Ucrânia, a Rússia não vai deixar ninguém tocar nesta terra. O máximo que poderia acontecer é ela tomar pra ela mesma. Porém, se não fez até agora, é porque não precisa. Só reforçando o que eu já tinha escrito antes, quem entra pela fronteira norte, com a Rússia, é considerado ilegal pela Geórgia, e não consegue atravessar para a Geórgia, em vez de entrar no país, entra em cana (de verdade!). Claro que não era nosso caso.

Valeu à pena ter conhecido, nada imperdível, mas fazia parte do objetivo da viagem.

 

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