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Category Archives: Nagorno Karabakh

Resumo da Viagem – Cáucaso

Chegou a hora de resumir a viagem. O certo é dividir em 2 capítulos, um sobre o Cáucaso e outro sobre o Irã, pois são muito distintos, apesar de fazerem fronteira. Isso por si só já é incrível, como pode? Tudo é tão diferente, e separado somente por uma ponte. Achei fascinante passar fisicamente por essa fronteira entre 2 mundos tão diferentes entre si.

Mas vamos lá, comecemos pelo Cáucaso. Primeira pergunta : onde fica, Ásia ou Europa? Geograficamente falando, a cadeia de montanhas separa a Europa da Ásia. Então a Rússia fica na Europa e o resto fica na Ásia. Difícil imaginar Tbilisi como uma cidade asiática. Tem toda a cara de Europa. Erevan idem.

Política : bem, para qualquer viajante minimamente interessado na região, é imperativo estudar um pouco do que aconteceu por lá, mesmo que seja nas últimas décadas. Até para entender a confusão que é atravessar uma simples fronteira, quais que são abertas, e quais que não são. E os vistos? Se tens um carimbo de entrada na Armênia, vais ter problemas no Azerbaijão. Eu que ganhei um carimbo de entrada em Nagorno Karabakh  já sei que sou persona non grata no Azerbaijão. Provavelmente nunca mais serei aceito por lá. Na Abcázia, se entra pela Rússia, só se pode sair pela Rússia. Se entra pela Georgia, só se pode sair pela Georgia. E assim vai. Entender os conflitos também ajuda, o porquê de religiões diferentes, de tanta briga, ódio e desconfiança em um pedaço de terra tão pequeno. Mas é claro que não deixa de ser super interessante e intrigante buscar saber sobre tudo isso, principalmente antes de ir, e depois ver in loco. Conversar com as pessoas, ouvir seus pontos de vista, enriquece mais ainda a viagem. Até porque não é uma região 5 estrelas em matéria de atrações turísticas, então se não tem interesse pela história e cultura, não é o destino ideal. Para mim, uma agradável surpresa.

Povo : neste quesito a medalha de ouro vai para a Georgia, até porque foi o lugar onde mais ficamos. No Azerbaijão foram 2 dias em Baku, uma cidade grande, então é até injustiça. Me lembro do motorista de táxi que me levou de graça do aeroporto até o centro de Baku. Onde mais no mundo isso acontece? Não tivemos nenhuma situação desagradável, em nenhum dos países, fora aquela em Grozny, onde estávamos de bermudas em uma cidade muçulmana e extremamente conservadora. De quem foi a culpa? Claro que nossa. E não posso deixar de mencionar que, apesar de termos perdido muito tempo com a polícia em Vladikavkaz, todos os policiais foram extremamente educados, e não nos intimidaram nenhuma vez.

Comida : aí o bicho pegou. O Guilherme tem estômago de aço, e come até pedra, mas eu tenho minhas restrições. Mesmo assim, sempre acho alguma opção. Confesso que o prato mais tradicional da Georgia tinha chance zero de ser provado por mim, mas me dei bem com outras opções.Sorte minha que existe uma boa influência árabe, e me deliciei com os kebabs em todo o lado. Tomamos bastante cerveja, antes de irmos pro Irã. Em Tbilisi, o fato de temos ficado ao lado do Carrefour nos ajudou bastante.

Hotéis : ficamos em hostel na maioria dos lugares. Não era alta estação, por causa do calor, e também pela falta de turistas, então a maioria nem estava cheio. Baratos e com razoável infra. Todos tinham wifi, muitos tinham café da manhã, e todos eram bem localizados. Só destoou em Vladikavkaz, na Rússia, que definitivamente não é uma cidade turística.

Transporte : pegamos um pouco de tudo. Começamos com trem, depois mashrutkas, que são os táxis comunitários, ônibus intermunicipais, e até carro com guia (em Nagorno Karabakh). Nas cidades pegamos metro, táxi, ônibus, quase tudo que se locomovia. Nenhum stress, fora claro, aquela estrada na Rússia, de Vladikavkaz até Grozny. Aliás, tudo de exceção aconteceu na Rússia.

Custos : esta parte da viagem foi barata. Não extremamente barata, porém bem mais barata que no resto da Europa. Basicamente tudo nesses países é mais barato do que na Europa, comida, transporte, hotéis, passeios, etc.

Vistos : já tinha mencionado que precisamos de visto para o Azerbaijão e Armênia. Tirei o do Azerbaijão em Brasília e o da Armênia em São Paulo (que é de graça). Poderíamos ter tirado na chegada, mas foi bom ter saído de casa com o assunto resolvido.

Segurança : essa questão é complicada. Segurança relacionada a roubos e furtos é total, não tivemos nenhum problema com isso. A questão complexa é relacionada aos conflitos entre os países, aí o bicho pode pegar. Depois que voltamos, houve 2 atentados à bomba em Gronzy, onde estivemos, e um ataque de helicópteros em Nagorno Karabakh, onde também estivemos. Se tivessem acontecido antes de irmos, não sei se a viagem teria acontecido, pois foi bem onde passamos, e a sensação de clima de guerra existe em muitos lugares. Claro que já sabíamos de tudo isso antes da viagem, mas não achava que estava correndo algum risco quando saí de casa. O que todos temiam era o Irã, exatamente o local mais seguro de todos.

Outros viajantes : como escrevi antes, não havia tantos turistas assim. E em locais como esses, os turistas normalmente querem trocar experiências, e informações. Conhecemos pessoas interessantes, não muitas, até porque em um determinado ponto estávamos em 4, e não havia tanta oportunidade assim. Os hostels são os principais locais para se conhecer mais gente.

Planejamento : bem, com o tempo escasso, acho que fizemos o melhor que podíamos. Deixei para trás a região de Mestia, que me pareceu ser a mais legal das que eu não fui. O interior do Azerbaijão também foi esquecido, só que esse vai ficar para a minha próxima encarnação, já que não entro mais naquele país (por conta do carimbo de Nagorno Karabakh no meu passaporte). No mais, vi tudo o que eu queria. Só deixamos a Ossétia do Sul de lado, já que não conseguimos a autorização para entrar lá. Fica para a próxima?

Companhia : excelentes. À 2, 3 ou 4, sempre de alto astral, com pessoas interessantes, viajadas e interessadas. Nada a reclamar. Guilherme já ficou íntimo, foi nossa 2a viagem. O Khouri e o Leo já são veteranos de viajar comigo, já me aturam há décadas, então não teve stress.

 

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Agdam e Tatev. Dois lugares tão próximos e tão diferentes

Acordamos cedo e tomamos um bom café da manhã. O Guilherme não tirou da cabeça a visita à Agdam, e o Armen também não tirou da sua cabeça que ele não ia. Mas como aventura é pouco pra nós, tomamos coragem, e decidimos visitá-la mesmo assim. Nosso amigo Armen se recusou a nos levar lá, disse que era proibido e perigoso, enfim, criou um clima de mais medo ainda. Ele nos levou de carro até Stepanakert, nos deixou em um ponto de taxi em frente à estação de ônibus, e negociamos com um deles para nos levar até lá. A condição é que não desceríamos do carro, só tiraríamos algumas fotos discretamente da janela. E assim foi.

Só um comentário : à princípio o Khouri disse que não queria ir à Agdam, mas depois que viu o clima da casa dos horrores, ele decidiu ir conosco. Afinal, achou mais seguro ir à uma zona de guerra do que ficar nos esperando por lá. Outro motivo é que de manhã deu pra ver que Shushi é super pequena (3.500 habitantes), sem muitos atrativos, e ia ser bem entediante pra ele ficar nos esperando lá.

Agdam já teve mais de 100.000 habitantes, e hoje é uma cidade fantasma. Não há ninguém morando lá. O único prédio que restou de pé, mesmo assim semi destruído foi a mesquita. Claro que depois de os azeris a abandonarem, a galera foi lá saquear tudo o que sobrou. Como é uma região perto da fronteira do Azerbaijão, ela é ocupada pelo exército, e teoricamente proibida para turistas.Recentemente saiu uma reportagem sobre o time de futebol chamada Karabakh, que fez história, e se classificou para a fase de grupos da Liga Europa. Foi o primeiro time azeri a conseguir este feito. Como o nome do clube diz, eles são de NK, mais especificamente de Agdam. Claro que a sede deles hoje não é mais em NK, fica em Baku.

O lugar é à princípio meio decepcionante, pois não há nada para ver. Depois é que me toquei que a atração era exatamente essa, de não ter mais nada lá. Rodamos pelas ruínas, até chegarmos na mesquita semi destruída. Tiramos fotos da janela do carro mesmo. A visita foi rápida, pois nem podíamos parar o carro. Havia soldados espalhados, mas ninguém nos abordou, e pudemos regressar à Stepanakert sem problemas.

Shushi, da janela da casa dos horrores

Shushi, da janela da casa dos horrores

Agdam - ou o que sobrou dela

Agdam – ou o que sobrou dela

Mesquita de Agdam

Mesquita de Agdam

De Agdam voltamos à Stepanakert e ficamos na praça central esperando pelo Armen. Logo ele chegou e pegamos a estrada em direção ao Monastério de Tatev. Para isso, obviamente precisamos cruzar a fronteira de volta para a Armênia. Tatev fica no alto de uma montanha, no fim de um canyon. A paisagem é absolutamente espetacular. De lá se vê inclusive as montanhas de NK. O local é tão inusitado, que existe um teleférico para chegar lá. Este teleférico tem quase 6 km de extensão, é o mais longo do mundo. A paisagem do teleférico e´de tirar o folego, mesmo pra quem não tem medo de altura. O consolo é que dá para ver lá de cima a estrada que precisam pegar se não quiserem utilizar o teleférico. O Armen nos deixou no local onde se pega o teleférico e foi nos pegar lá em cima. Portanto nós utilizamos esta estrada na volta. As fotos falam por si.

Teleférico de Tatev

Teleférico de Tatev

Vista do teleférico - lá em baixo a estrada alternativa de quem tem medo de altura

Vista do teleférico – lá em baixo a estrada alternativa de quem tem medo de altura

Na verdade nem precisava ter um monastério no alto da montanha para se tornar um passeio excelente, mas com este atrativo a mais, o programa se torna imperdível para quem visita a Armênia. Um dia antes de eu deixar o Brasil, passou na TV o Globo Repórter sobre a Armênia, e no programa mostra o teleférico e o monastério. Mas ao vivo posso afirmar que é bem mais espetacular, não dá nem para comparar.

O monastério em si é meio padrão, já estávamos meio cansados de tantos monastérios, então já passávamos meio batidos. Tem uma igreja principal, como todos os outros. Essa se chama Surp Poghos-Petros, o que significa Igreja de St. Paul and St. Peter. A vista lá de cima é inspiradora.

Tatev - espetáculo!

Tatev – espetáculo!

Igreja de St. Paul and St. Peter (Surp Poghos-Petros), dentro de Tatev

Igreja de St. Paul and St. Peter (Surp Poghos-Petros), dentro de Tatev

Bem, depois de curtir a igreja e o visual, pegamos a estrada de novo, em direção à Goris. Goris é uma cidade que fica em uma encruzilhada. Para o norte, fica Nagorno Karabakh. Para oeste, Erevan, que era para onde o Armen ia, levando o Guilherme. E para o sul, a estrada que leva à fronteira com o Irã, que era para onde íamos no dia seguinte. Portanto, foi a nossa real despedida do Guilherme. A partir dali, seríamos somente 3.

Um breve comentário sobre o grupo. Na verdade, apesar de conhecer o Leo e o Khouri há décadas, foram eles que “invadiram” minha viagem com o Guilherme. Viajar à 4 é diferente de viajar à 2, há vantagens e desvantagens. Mas tenho que admitir que para o Guilherme, tão acostumado a viajar sozinho, deve ter sido no mínimo estranho ter que passar quase 2 semanas à 4, quanto mais com 2 que ele nem conhecia. Ou ele fingiu muito bem, ou realmente conseguiu se adaptar bem. Até porque não houve qualquer stress desde o início da viagem, sempre com o clima de alto astral.

Praça central de Goris

Praça central de Goris

Antes de mais nada, o Armen parou um motorista na rua, e perguntou quanto ele cobraria para nos levar até Agarak, na fronteira com o Irã. São “apenas” 165 kms. Acertamos o preço, e marcamos dele nos pegar no dia seguinte cedo no hotel.

O hotel que ficamos em Goris surpreendentemente foi o melhor da viagem. Um brinco de quarto, mas o melhor viria no dia seguinte. A cidade era quase fantasma, pouquíssimas pessoas nas ruas, quase tudo fechado, mas conseguimos achar um local para trocar dinheiro, e ainda melhor, um mercado para comprarmos mantimentos para a longa jornada do dia seguinte, rumo ao Irã.

Pra completar, um restaurante onde pudemos tomar a última cerveja com álcool da viagem, jantar e ir descansar desses 2 dias super hiper cansativos. Não tínhamos ideia de como esses 2 dias iriam afetar nossa viagem. Como escrevi no último post, aquele Niva não foi feito para carregar 5 adultos em lugar nenhum, quanto mais nestas estradas horrorosas. Antes de dormir, o Khouri começou e reclamar de dor nas costas. Pelo menos no dia seguinte seríamos nós 3 e o motorista, sobraria mais espaço, e o carro era um Renault Logan, bem espaçoso e mais confortável que o Niva.

 

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Nagorno Karabakh – mais um “não país”

O Armen chegou cedo, às 6 da matina, e partimos. Ele tinha um Niva, que pode ser bom pra muita coisa, menos pra carregar 5 adultos por estradas horrorosas. Mas aventura é isso mesmo, então pé na estrada. A primeira parada foi no alto do Cascade, para tirar fotos do Monte Ararat, que só é visível de Erevan em dias muito claros. E tiramos boas fotos.

Vista do Monte Ararat às 6:30 da manhã

Vista do Monte Ararat às 6:30 da manhã

Depois caímos na estrada, rumo à Sevan, uma bela cidade que fica à beira do Lago Sevan. Sevan é a Riviera da Armênia, no verão fica lotada de turistas, a maioria armênios, pois é a melhor praia do país. O objetivo da visita era o Sevanavank (Sevan Monastery). Imponente, ele fica no alto de um morro, permitindo dezenas de fotos dele com o lago ao fundo. Mais um lugar de cartão postal. A vista é espetacular, rivaliza com Khor Virap como a mais bonita da Armênia.

Sevan Monastery

Sevanavank – Sevan Monastery

Passamos pelo centro da cidade, para comprar mantimentos, já que teríamos um longo dia pela frente. Mas as opções eram escassas, senti muitas saudades do Carrefour de Tbilisi. Mesmo assim fomos em frente, dentro do desconfortável Niva. Visitamos um cemitério medieval, bem bacana. Fomos contornando o Lago Sevan até termos que desviar no sentido de Nagorno Karabakh. Paramos na última vila, chamada Vardenis, essa realmente tinha cara de final de linha, onde o vento faz a curva. Dali pra frente, estávamos entrando em um mundo meio sinistro, e vou explicar porque.

Cemitério medieval - com ovelhas pastando

Cemitério medieval – com ovelhas pastando

Khouri fazendo um lanche em Vardenis

Khouri fazendo um lanche em Vardenis

Pra começar, só o significado do nome já mostra o cartão de visitas dessa encrenca. Nagorno significa montanhoso, em russo. Kara significa preto, em turco. E bakh significa jardim, em persa. Como todo a região do Cáucaso, Nagorno Karabakh (NK) foi habitado séculos antes de Cristo, e em algum momento fazia parte da Grande Armênia. Não sou perito em História, quanto mais desta região, apenas estou repassando o pouco que entendi, bem resumido, não quero ser acusado de estar escondendo parte do que aconteceu. Mas o fato é que depois de muitas conquistas, dentre elas pelos turcomanos, persas e russos, com sua população indo e vindo, emigrando e imigrando, até que chegamos à era soviética. Após a Revolução Russa, Stalin formou a República Democrática Federativa Transcaucásia, formada pelo que hoje são Azerbaijão, Geórgia e Armênia. Logo foi desmembrada e começou o conflito entre a Armênia e o Azerbaijão envolvendo várias regiões, NK entre elas. Pra complicar mais ainda, os britânicos intervieram e indicaram o Azerbaijão como governantes, o que iniciou mais uma rodada de conflitos. Logo depois, em 1920, o exército bolchevique invadiu, e, em uma manobra política com a Turquia, acabou devolvendo NK para os azeris. Durante toda a duração da União Soviética, este status não mudou, mas o fato é que a maioria da população era armênia, e é claro que mais cedo ou mais tarde ia dar confusão. E deu.

Com o declínio da União Soviética, em 1988 os conflitos recomeçaram, iniciando o êxodo das minorias azeris para o Azerbaijão e armênias para a Armênia. Em 1989 os soviéticos saíram do governo, e logo depois o Conselho Nacional proclamou unificação com a Armênia. Nada disso poderia dar certo, e só demorou mais 2 anos até que a guerra efetivamente começasse. Foi uma carnificina. Dezenas de milhares de mortos, refugiados pra todos os lados, principalmente os azeris, que quase não existem mais em NK. Hoje NK é um estado independente, tem seu governo próprio, sua bandeira, etc. Mas é intimamente ligado à Armênia, tanto que usa sua moeda, e tem muitos soldados armênios por lá. Cerca de 95% da população é de armênios.  Um exemplo mais forte ainda é que um ex primeiro ministro de NK, Robert Kocharian, virou primeiro ministro da Armênia e depois presidente. A pergunta que não quer calar : porque a Armênia não anexo de vez NK? Simplesmente por medo da comunidade internacional, que ainda reconhece NK como parte do Azerbaijão, e do próprio Azerbaijão, que pelo visto ainda não desistiu de retomar para si esta região. É claramente uma situação pendente, e muita água vai passar ainda por debaixo desta ponte. Quando estávamos em Baku, no Azerbaijão, conversando com o povo local, dá pra sentir claramente que eles consideram NK como terra deles, que foi tomada na mão grande, e que mais cedo ou mais tarde vai ser retomada. Eles se consideram pacíficos, mas é só da boca para fora. Eles só não entram em guerra de novo porque a Grande Irmã Rússia não deixa. Na Armênia é exatamente ao contrário, eles acham que NK é deles, e um dia será finalmente anexada. E em NK, eles se consideram independentes, não querem estar com ninguém, mas é claro que pela etnia e cultura, se inclinam pela Armênia.

Na semana passada um helicóptero do exército de NK foi derrubado for forças azeris, demonstrando que as tensões só aumentam na região, em vez de diminuir. Claro que se tivesse acontecido antes da nossa viagem, iria nos fazer provavelmente alterar nossos planos, pois ninguém estava disposto a arriscar sua vida apenas para visitar este enclave. Mas, assim como na Chechênia, os ataques só aconteceram depois da nossa volta, graças à Deus foi tarde demais. Lembro que em 2011 estava em Lamu, no Quênia, quando aconteceu um sequestro e assassinato de um turista, enquanto eu estava lá. Não vi, não me afetou, pois estava de partida no dia seguinte, mas não deixa de ser uma sensação bem estranha.

Dito tudo isso, fiquei na dúvida se comemorava meu 100º país. Ora, se é um estado independente, porque não? E a Palestina, que aliás foi ontem reconhecida pela Suécia, não conta? Quando que conta? Cada um tem sua conta, e a minha tem, além dos países reconhecidos pela ONU, os países que de fato funcionam independentes. Palestina, Abcásia, Kosovo são alguns deles. Este número 100 nunca foi um objetivo em si, apenas uma consequência de sempre preferir ir à lugares diferentes do que repetir os lugares já visitados, mesmo aqueles que eu gostei muito. Esses ficam na minha lista de desejos futuros, mas a preferência sempre será por novidades. E nessa viagem o que não faltou foi novidade.

Depois que partimos de Vardenis, duas coisas aconteceram : a paisagem ficou bem montanhosa, e deserta ao mesmo tempo. Deserta de carros e pessoas. Existe um posto fronteiriço, mas que não para ninguém para checagem. O que precisávamos fazer era chegar em Stepanakert, capital de NK, e tirar o visto lá mesmo. Pra não dizer que não vimos ninguém, paramos nosso Niva na estrada para umas fotos, bem perto de um trator. Enquanto todos tiravam fotos da paisagem montanhosa, e muito bonita, por sinal, o motorista veio me oferecer drogas. No mínimo inusitado.

Na estrada, em Nagorno Karabakh

Na estrada, em Nagorno Karabakh

Continuamos balançando furiosamente na estrada que era ora de terra, ora de cascalho, ora de pedrinhas, e quase nunca de asfalto. O Armen me disse que uma vez teve problemas com o carro, e ficou mais de 8 horas esperando por ajuda, de tão deserto que é o caminho. O caminho principal do país é a estrada que liga Erevan para Stepanakert, a capital de NK, e para onde estávamos indo.

De repente, do meio do nada, o Armen sai da estrada, sobe um morro e chega no Monastério Dadivank. Simplesmente perdido no meio do nada. Incrível.Foi construído no século XIII, e hoje está praticamente abandonado. Muito triste ver a situação de uma atração como essa. A vista de longe é linda, mas de perto dá dó.

Dadivank Monastery

Dadivank Monastery

Mais adiante na estrada, uma parada para tirar fotos de um dos tanques abandonados da guerra recente.

Tanque abandonado na beira da estrada

Tanque abandonado na beira da estrada

O vilarejo de Vank merece alguns comentários. O primeiro é que eles construíram um muro feito de placas de carros azeris abandonados durante a guerra. Uma imagem que nunca tinha imaginado ver.

Muro formado por placas de carros azeris

Muro formado por placas de carros azeris

O outro comentário é que este vilarejo é único, pois tem o dedo de um patrono do local, Levon Hairapetian, um barão sediado na Rússia, mas que resolveu entre outras coisas construir um hotel bem esquisito. O restaurante tem forma de um navio, a área de lazer é de um mau gosoto extremo, mas o mais incrível para mim foi ver uma escavação nas rochas em formato de cara de tigre. Eis a imagem :

Escavação em Vank

Escavação em Vank

De Vank, subimos até o Gandzasar Monastery, que é o maior de NK. Bem impressionante, principalmente comparado com os outros, que estão em petição de miséria. Além de bem cuidado, é grande, e tem uma vista bonita lá de cima. Ele é do século XIII

Gandzasar Monastery

Gandzasar Monastery

Após esta visita, rumamos para Stepanakert. Que dia mais cheio. Chegamos já exaustos, mas precisávamos ainda tirar o visto de entrada em NK. Passamos primeiro por um monumento chamado Papik Tatik. É difícl descrever, acho que a foto pode me ajudar. Mas a verdade é que este “casal” aparece em tudo que é souvenir do país. Eles significam”Nós somos nossas montanhas”.

Papik Tatik

Papik Tatik

De lá fomos direto para o centro de Stepanakert, onde fica o Ministério das Relações Exteriores, tirar o visto. Foi rapidíssimo. Talvez explicado pelo fato de que não havia mais turistas (acho que no país todo).

Onde pegamos nosso visto

Onde pegamos nosso visto

Caminhamos pela avenida principal, que tem um nome incompreensível : Azatamartkneri Poghota. É bem agradável, e da em uma praça, onde havia wifi grátis, fontes de água, e vários locais. Difícil saber quem olhava mais para quem, nós para eles ou eles para nós.

Azatamartkneri Poghota (esse é o nome da avenida principal)

Azatamartkneri Poghota (esse é o nome da avenida principal)

Galera das antigas na praça principal. Quem era atração, nós ou eles?

Galera das antigas na praça principal. Quem era atração, nós ou eles?

Perto fica o Palácio Presidencial, e outros monumentos menos cotados.

Palácio Presidencial em Stepanakert

Palácio Presidencial em Stepanakert

Tava visto, e daí fomos tomar uma cerveja com o Armen. Escureceu e fomos para Shushi, sua cidade, que fica à apenas 9 km de Stepanakert, mas tem que subir uma pirambeira. Pra se ter uma ideia, Stepanakert, a capital do país, tem 55.000 habitantes. Shushi tem apenas 3.500.

Chegamos lá, e sua esposa já nos esperava para o jantar. Complicado descrever a situação. Pra começar, o prédio era super velho, e inacabado (ou semi destruído pela guerra, fiquei com vergonha de perguntar). A filha deles era o verdadeiro capeta, fazia maldades com o gato, que me deu nó no estômago. A mãe até pediu desculpas  A infra era super precária, até aí já nem estávamos mais ligando. Só o que queríamos era tomar um banho, comer algo e dormir. Eles tinham um casal de franceses como convidados para o jantar, e assim foi. Claro que pagamos pelo pacote, com carro com motorista por 2 dias, cama e janta. E claro que valeu à pena, jamais teríamos feito tudo o que fizemos em 2 dias sem um pacote destes. Viajar por conta própria em NK deve ser um inferno, nem imagino se é possível.

Jantar na casa dos horrores

Jantar na casa dos horrores

Depois do jantar o Armen foi levar seus convidados em algum lugar e fomos dormir. Já estava no décimo sono quando acordei com um barulho de alguém esmurrando uma porta, falando em um idioma incompreensível. Me toquei aonde eu estava, e resolvi nem me mexer. Isso durou mais de 15 minutos até que o Guilherme saiu do quarto dele e abriu a porta da casa. Era o Armen, que não tinha levado a chave. A mulher dele não acordou com o barulho, e tomou uma super bronca. Aliás, o Armen tratava a mulher dele como empregada, e isso nos incomodou bastante. A filha era uma lunática, imagina como era a vida naquela casa sem visitas. O melhor a fazer era mesmo virar pro lado e dormir.

 

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