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Category Archives: Russia

Resumo da Viagem – Cáucaso

Chegou a hora de resumir a viagem. O certo é dividir em 2 capítulos, um sobre o Cáucaso e outro sobre o Irã, pois são muito distintos, apesar de fazerem fronteira. Isso por si só já é incrível, como pode? Tudo é tão diferente, e separado somente por uma ponte. Achei fascinante passar fisicamente por essa fronteira entre 2 mundos tão diferentes entre si.

Mas vamos lá, comecemos pelo Cáucaso. Primeira pergunta : onde fica, Ásia ou Europa? Geograficamente falando, a cadeia de montanhas separa a Europa da Ásia. Então a Rússia fica na Europa e o resto fica na Ásia. Difícil imaginar Tbilisi como uma cidade asiática. Tem toda a cara de Europa. Erevan idem.

Política : bem, para qualquer viajante minimamente interessado na região, é imperativo estudar um pouco do que aconteceu por lá, mesmo que seja nas últimas décadas. Até para entender a confusão que é atravessar uma simples fronteira, quais que são abertas, e quais que não são. E os vistos? Se tens um carimbo de entrada na Armênia, vais ter problemas no Azerbaijão. Eu que ganhei um carimbo de entrada em Nagorno Karabakh  já sei que sou persona non grata no Azerbaijão. Provavelmente nunca mais serei aceito por lá. Na Abcázia, se entra pela Rússia, só se pode sair pela Rússia. Se entra pela Georgia, só se pode sair pela Georgia. E assim vai. Entender os conflitos também ajuda, o porquê de religiões diferentes, de tanta briga, ódio e desconfiança em um pedaço de terra tão pequeno. Mas é claro que não deixa de ser super interessante e intrigante buscar saber sobre tudo isso, principalmente antes de ir, e depois ver in loco. Conversar com as pessoas, ouvir seus pontos de vista, enriquece mais ainda a viagem. Até porque não é uma região 5 estrelas em matéria de atrações turísticas, então se não tem interesse pela história e cultura, não é o destino ideal. Para mim, uma agradável surpresa.

Povo : neste quesito a medalha de ouro vai para a Georgia, até porque foi o lugar onde mais ficamos. No Azerbaijão foram 2 dias em Baku, uma cidade grande, então é até injustiça. Me lembro do motorista de táxi que me levou de graça do aeroporto até o centro de Baku. Onde mais no mundo isso acontece? Não tivemos nenhuma situação desagradável, em nenhum dos países, fora aquela em Grozny, onde estávamos de bermudas em uma cidade muçulmana e extremamente conservadora. De quem foi a culpa? Claro que nossa. E não posso deixar de mencionar que, apesar de termos perdido muito tempo com a polícia em Vladikavkaz, todos os policiais foram extremamente educados, e não nos intimidaram nenhuma vez.

Comida : aí o bicho pegou. O Guilherme tem estômago de aço, e come até pedra, mas eu tenho minhas restrições. Mesmo assim, sempre acho alguma opção. Confesso que o prato mais tradicional da Georgia tinha chance zero de ser provado por mim, mas me dei bem com outras opções.Sorte minha que existe uma boa influência árabe, e me deliciei com os kebabs em todo o lado. Tomamos bastante cerveja, antes de irmos pro Irã. Em Tbilisi, o fato de temos ficado ao lado do Carrefour nos ajudou bastante.

Hotéis : ficamos em hostel na maioria dos lugares. Não era alta estação, por causa do calor, e também pela falta de turistas, então a maioria nem estava cheio. Baratos e com razoável infra. Todos tinham wifi, muitos tinham café da manhã, e todos eram bem localizados. Só destoou em Vladikavkaz, na Rússia, que definitivamente não é uma cidade turística.

Transporte : pegamos um pouco de tudo. Começamos com trem, depois mashrutkas, que são os táxis comunitários, ônibus intermunicipais, e até carro com guia (em Nagorno Karabakh). Nas cidades pegamos metro, táxi, ônibus, quase tudo que se locomovia. Nenhum stress, fora claro, aquela estrada na Rússia, de Vladikavkaz até Grozny. Aliás, tudo de exceção aconteceu na Rússia.

Custos : esta parte da viagem foi barata. Não extremamente barata, porém bem mais barata que no resto da Europa. Basicamente tudo nesses países é mais barato do que na Europa, comida, transporte, hotéis, passeios, etc.

Vistos : já tinha mencionado que precisamos de visto para o Azerbaijão e Armênia. Tirei o do Azerbaijão em Brasília e o da Armênia em São Paulo (que é de graça). Poderíamos ter tirado na chegada, mas foi bom ter saído de casa com o assunto resolvido.

Segurança : essa questão é complicada. Segurança relacionada a roubos e furtos é total, não tivemos nenhum problema com isso. A questão complexa é relacionada aos conflitos entre os países, aí o bicho pode pegar. Depois que voltamos, houve 2 atentados à bomba em Gronzy, onde estivemos, e um ataque de helicópteros em Nagorno Karabakh, onde também estivemos. Se tivessem acontecido antes de irmos, não sei se a viagem teria acontecido, pois foi bem onde passamos, e a sensação de clima de guerra existe em muitos lugares. Claro que já sabíamos de tudo isso antes da viagem, mas não achava que estava correndo algum risco quando saí de casa. O que todos temiam era o Irã, exatamente o local mais seguro de todos.

Outros viajantes : como escrevi antes, não havia tantos turistas assim. E em locais como esses, os turistas normalmente querem trocar experiências, e informações. Conhecemos pessoas interessantes, não muitas, até porque em um determinado ponto estávamos em 4, e não havia tanta oportunidade assim. Os hostels são os principais locais para se conhecer mais gente.

Planejamento : bem, com o tempo escasso, acho que fizemos o melhor que podíamos. Deixei para trás a região de Mestia, que me pareceu ser a mais legal das que eu não fui. O interior do Azerbaijão também foi esquecido, só que esse vai ficar para a minha próxima encarnação, já que não entro mais naquele país (por conta do carimbo de Nagorno Karabakh no meu passaporte). No mais, vi tudo o que eu queria. Só deixamos a Ossétia do Sul de lado, já que não conseguimos a autorização para entrar lá. Fica para a próxima?

Companhia : excelentes. À 2, 3 ou 4, sempre de alto astral, com pessoas interessantes, viajadas e interessadas. Nada a reclamar. Guilherme já ficou íntimo, foi nossa 2a viagem. O Khouri e o Leo já são veteranos de viajar comigo, já me aturam há décadas, então não teve stress.

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Dargavs – A Cidade dos Mortos

Tínhamos combinado com um amigo do Zico para nos pegar no hotel em Vladikavkaz, nos levar a Dargavs, um local à 80 kms, e de lá nos levar de volta à Kazbegi, na Geórgia. Aparentemente era fácil, tudo muito perto, mas na prática não foi bem assim.

Dargavs se trata de um local do século XIII, onde o pessoal deixava os mortos dentro de umas casinhas com uma cara meio simpática. Pra chegar lá, pegamos uma estrada boa, depois saímos para uma menor, mas ainda boa, depois da última cidade naquela região, passamos para uma estrada menor ainda. Quando começa a subir de verdade, a vista vai ficando um show.

Última vila antes de Dargavs

Última vila antes de Dargavs

Vista de um forte em ruínas

Vista de um forte em ruínas

Mais uma meia hora e chegamos em um povoado perdido. Era manhã, e um casal simpático foi nos orientar em como chegar lá. Estávamos à 5 minutos.

Com um casal simpático no meio do nada

Com um casal simpático no meio do nada

A vista de Dargavs de longe já é pitoresca, de perto mais ainda. O local é tão remoto, e tão pouco visitado, que a bilheteria estava fechada, e permaneceu assim por todo o tempo que ficamos. Não chegou nem um funcionário, e nem turista. Somente nós. As casinhas, que não são casinhas, são tumbas, com esqueletos dentro. Os locais não gostam de ir lá, pois dizem que quem vai não volta. Com certeza não foi o nosso caso.

Dargavs

Dargavs

Casinhas simpáticas de perto

Casinhas simpáticas de perto

Depois de pouco mais de uma hora por lá, resolvemos partir de volta para a Geórgia. Pegamos a mesma estrada de volta para Vladikavkaz, e de lá direto para a fronteira. Hoje a fronteira estava mais cheia do que ontem, não sei se porque era no outro sentido. Nosso motorista repetiu o script do Zico, ultrapassando todo mundo, furando fila, na maior cara de pau. Passamos pela saída da Rússia, e entramos naquela terra de ninguém. Aí a coisa ficou feia. Entre os 2 túneis o trânsito parou, e claro que vários motoristas tiveram a mesma ideia de ultrapassar mesmo assim. Quando começou a vir carro do outro sentido a estrada parou de vez, e alguns resolveram ir pelo acostamento do outro lado, e piorou tudo que podia. Ficamos mais de uma hora até eles se entenderem, e darem passagem para quem vinha do outro sentido. O que deu pra perceber é que do lado russo a coisa é bagunçada e os mafiosos mandam no pedaço. Do lado georgiano é diferente, tudo organizado, com fiscalização, e aí todos respeitam.

Caos na terra de ninguém (entre a Rússia e a Geórgia)

Caos na terra de ninguém (entre a Rússia e a Geórgia)

Depois que cruzamos a última fronteira, após mais de 3 horas nas filas, o motorista nos deixou em Kazbegi. De lá pegamos uma van para Tbilisi. Na saída, algumas surpresas, A primeira foi essa aí na foto :

Presos na estrada em um mar de ovelhas

Presos na estrada em um mar de ovelhas

Depois paramos no mirante de novo. E ainda paramos mesmo forte da ida. mas o que mais me impressionou foi a fila de carros e caminhões subindo as montanhas. A polícia fez um bloqueio para não congestionar mais ainda a fronteira. Mesmo com todo a fila que vimos e enfrentamos, havia uma fila de caminhões parados no acostamento da estrada com mais de 10 kms, e ainda várias filas de carros também parados de quilômetros. Acho que demos sorte, pois decidimos atravessar a fronteira no dia seguinte que ela reabriu, e não deu tempo dessa galera chegar lá. Como ela reabriu antes do previsto, quem estava perto, como nós, se deu bem. Muitos tinham ido para o Azerbaijão, entrar na Rússia por lá, pois a previsão era de mais alguns dias ainda para reabrir esta fronteira.

Chegamos à noitinha em Tbilisi, e ainda deu tempo pra novo rango no nosso restaurante predileto.

Nosso restaurante na Gorgasalis Moedani - dá pra entender o nome?

Nosso restaurante na Gorgasalis Moedani – dá pra entender o nome?

Rango georgiano

Rango georgiano

 
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Posted by on October 20, 2014 in Caucasus, Cáucaso, Russia

 

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Chechênia – esta visita não se conta em lugar nenhum

A região que engloba Ossétia, Inguchétia, Chechênia e Daguestão foi habitada há séculos por diversas etnias, que em geral eram governadas por clãs, respeitavam seus líderes, relações sanguíneas, e sempre foram muçulmanas sunitas. A União Soviética, na época de Stalin alterou tudo, mandando os inguches e chechenos para a Sibéria, os acusando de colaboração com os nazistas. Seus territórios e propriedades foram ocupados pelos vizinhos ossetas e daguestaneses, o que originou vários conflitos locais, principalmente após a volta deles. Com o fim da União Soviética em 1991, os chechenos declararam independência. Pela sua posição estratégica, produtora de petróleo, e passagem da Rússia para o outro lado do Cáucaso, a Rússia jamais iria permitir esta separação. Desta forma, o bicho pegou, e o exército russo interveio, originando a primeira das 2 guerras na Chechênia, o que causou mais de 150.000 mortes em 10 anos de conflito. Claro que o conflito aberto não existe mais, por enquanto. Mas a insatisfação do povo com os russos só aumenta, e claramente ainda é um barril de pólvora. A Rússia controla tudo com mão de ferro, e não vai deixar a Chechênia escapar. O controle é tão forte, que os próprios russos dizem que a Chechênia é um dos lugares mais seguros da Rússia hoje em dia. Não é. Há 2 dias houve um atentado de um homem bomba, em um teatro em Grozny. Ainda bem que já voltamos.

A passagem pela fronteira Geórgia – Rússia e a novela de Vladikavkaz foi tão longa que tive que dividir o mesmo dia em 2 posts. No nosso imaginário, ao mesmo tempo que o nome Chechênia assustava por conta da guerra recente, as informações que obtive na internet e com o Guilherme é que era de pura calmaria. E que Grozny estaria reconstruída, depois de ter todos, repito, todos os prédios destruídos na guerra.

Finalmente saímos de táxi para Grozny, na Chechênia. Nosso motorista de táxi não conhecia Grozny, e não entendia porque estávamos gastando tempo e dinheiro para visitá-la, em vez de ir fazer um churrasco nas montanhas. Demos boas risadas com ele. A estrada está em reforma, parte dela já duplicada, e parte ainda em duplicação. Por que estou mencionando este fato? Porque o nosso glorioso motorista se empolgou, acelerou a mais de 130 km/h em um trecho não duplicado. Eu vi uma placa informando que a pista ia virar dupla, e que os carros deveriam desviar à direita, mas aparentemente nem ele nem ninguém viu. O que acabou acontecendo é que ele continuou em frente, na contramão, à 130km/h. Meu coração bateu mais rápido do que isso. Mas claro que não vinha nenhum carro no sentido contrário, se não eu não estaria escrevendo este post agora.

O caminho é meio monótono, e logo chegamos à Grozny. A primeira impressão foi de uma cidade russa qualquer, até chegarmos à avenida principal e depararmos com prédios novos, vários deles altos, hotéis, edifícios comerciais. Como o motorista não conhecia Grozny, e estava com medo de ser parado pela polícia, ele resolveu parar em um estacionamento, e dali caminhar pelo centro, que não dá mais pra chamar de histórico. O que vimos foi uma avenida com quase nenhum pedestre, um ambiente meio artificial. Depois dos prédios comerciais, uma mesquita estalando de novo, um teatro ainda em construção, enfim, tudo novo. Nada que me fizesse relacionar com uma guerra tão recente. Fazia sentido estar tudo reconstruído, mas a sensação era bem estranha.

Shopping novo e com pouco movimento

Shopping novo e com pouco movimento

Mesquita nova de Grozny

Mesquita nova de Grozny

Hotéis e edifícos comerciais

Hotéis e edifícios comerciais

Teatro Nacional quase pronto

Teatro Nacional quase pronto

Andamos bastante, até a mesquita, a avenida de trás, as construções são espaçadas, então tudo é meio longe. Na volta pro carro, começaram a implicar com nossas bermudas. Foi estranho, um ciclista cruzou por mim, depois de um tempo ele deu meia volta, e começou a falar meio agressivamente, puxando a sua própria calça jeans. Concluí que ele estava reclamando do fato de eu estar de bermuda. Aliás, fora nosso motorista, todos estavam de bermuda. Depois alguns carros passaram e as pessoas gritavam da janela algo obviamente ininteligível, mas que concluímos se tratar ainda das bermudas. O clima foi ficando meio quente, e felizmente bem na hora que voltamos ao carro.

Memorial na Inguchétia

Memorial na Inguchétia

Demos mais uma volta pela cidade de carro, e decidimos voltar para Vladikavkaz. Não podia deixar de mencionar o estilo russo de dirigir na estrada. Quando a pista é simples, isto é, mão e contramão, a prioridade é de quem está ULTRAPASSANDO. Isto significa que quem está andando certinho na sua faixa, corre o risco de bater de frente com um louco que vem de encontro. Ou sai da frente, ou acontece o acidente. Acho que todos os distraídos ou resistentes à este sistema devem ter morrido ou abandonado o país, pois o sistema aparentemente funciona bem, ninguém reclama quando vem alguém ultrapassando. Isso acontece até nas curvas. Pra nós, foi super estressante, não sabia se era melhor prestar atenção ou simplesmente não olhar e rezar (muito).

Chegamos todos vivos e intactos em Vladikavkaz. Fomos atrás de alimento, não nos esquecendo que quanto mais tempo ficássemos na rua, maior a probabilidade de sermos parados de novo pela polícia. Então fomos à um mercado perto do hotel, levamos comida pro quarto e dormimos.

Depois de uma dia deste, estávamos todos exaustos física, mental e emocionalmente. Volto a afirmar que não fomos ameaçados nem maltratados pela polícia, mas como não sabíamos qual seria o próximo capítulo, realmente foi muito estressante. Valeu à pena, pois o objetivo era este mesmo, visitar a Chechênia, e conseguimos. E com boas lembranças.

 
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Posted by on October 17, 2014 in Caucasus, Cáucaso, Russia

 

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Vladikavkaz – turismo?

Acordamos cedo, e o motorista já estava nos esperando, cheio de pressa. Tomamos café e partimos pra estrada. Como eu havia escrito, Kazbegi fica à 12 km da fronteira. A estrada passa por um canyon, com paredões de rocha dos 2 lados. O cara saiu como um louco, ultrapassando os carros nas curvas, nós ficamos em pânico. Logo entenderíamos o motivo de tanta pressa.

Chegamos ao posto fronteiriço georgiano, onde todos devem sair dos carros e entrar num salão. Daí é um salve-se quem puder, uma multidão disputando cada centímetro até chegar lá na frente e ser chamado pelos atendentes. Depois do carimbo, o motorista, que se chamava Zico, estava nos esperando com o carro ligado. Partimos então para o posto russo, passando por uma terra de ninguém, uns 3 à 4 kms de estrada, passando por 2 túneis até depararmos com uma fila imensa de carros parados. O Zico nem titubeou, foi ultrapassando todos até chegar à um ponto onde os carros que tinham feito o mesmo que ele não conseguiam avançar mais. Isso porque vinham carros no sentido contrário, e logo ninguém andava. Ele logo saiu do carro e começou a discutir com todos. Havia alguns caras que nitidamente controlavam a fila, e ditavam quem podia ir pela fila dupla e quem não podia (normalmente os armênios sempre tentavam, e nunca conseguiam).

Depois de muita discussão, um dando ré, outro indo para um espaço do outro lado da pista, acabaram dando passagem para alguns carros, e aí o Zico saiu em disparada pela contramão até embicar na frente de um carro que estava quase no ponto onde haviam bloqueios laterais de concreto, e daquele ponto ninguém iria conseguir mais furar a fila. O que entendi é que o cara que deixou ele entrar na frente era irmão dele, e estava o esperando. Por isso a pressa desde o início. Se tivéssemos entrado na fila normalmente, acho que teríamos perdido pelo menos umas 3 horas a mais naquela fila. Detalhe, durante todo o processo, mesmo com uma cara de mau que ele fazia para todos, ele sempre olhava pra nós e sorria, e piscava o olho. Uma figuraça. Claro também que não temos fotos deste episódio, é proibido tirar fotos na fronteira. Mas algumas conseguimos na volta.

A população original da Ossétia é descendente de indoeuropeus, que chegaram à região no século IV. Foram atacados pelos tártaros (tudo a ver com o molho) no século XIII, e se refugiaram nas montanhas. Os outros habitantes da área eram os inguches, que foram na sua maioria deportados por Stalin em 1944 para a Sibéria. Quando eles voltaram, na época do Kruschev, encontraram sua propriedades ocupadas pelos ossetas, e aí o caldeirão começou a ferver. O pau começou a comer em 1992, e os russos tomaram o partido dos ossetas. Então imagina o clima. Vladikavkaz fica na Ossétia, andando para o leste, passaríamos pela Inguchétia, e depois chegaríamos em Grozny, que fica na Chechênia. Isso tudo em pouco mais de 100 kms de estrada.

Uma meia hora a mais e chegamos em Vladikavkaz. Uma cidade absolutamente sem graça, sem atrações, típica cidade de interior russa. Mas a Rússia era novidade para o Leo, Khouri e Guilherme, então na primeira parada para o Zico pedir informações, saímos do carro para tirar algumas fotos, e aí começaram os problemas. Imediatamente veio um policial pedir nossos passaportes, e logo ligou para alguém,. Cinco minutos e chegou um carro de polícia. Depois de muito conversar com o Zico, nos levaram para uma delegacia. Lá ficamos quase 1 hora esperando eles nos registrarem, e acho eu, aguardar um chefe, que acabou chegando, confabulando e nos liberando. Fomos então para um hotel que o Guilherme tinha contato, mas para a nossa surpresa, eles se recusaram a receber estrangeiros. Tivemos que então rodar pelo centro, até encontrarmos outro hotel, que desta vez nos aceitou, mas pediu um preço indecente. Não estávamos em condições de negociar, pois já era quase 1 da tarde, e tínhamos como objetivo ir até Grozny e voltar no mesmo dia, 120 kms para ir e mais 120 kms para voltar.

Vladikavkaz

Vladikavkaz

Depois de deixar as coisas no hotel, o Zico nos deixou na estação de trem, pois era de lá que saíam os ônibus para Grozny. Ele arrumou um cara que ia nos pegar no hotel no dia seguinte, e nos levar até Dargavs, e de lá até Kazbegi, na Geórgia. Claro que não seria barato, mas era o preço para quem estava com pressa e queria ver atrações que eram longe, além é claro de atravessar aquela fronteira de novo. Mas isso é papo pra depois, nosso objetivo era ir até Grozny. Quando fomos fazer a primeira pergunta sobre que horas sairia o ônibus para Grozny, veio um policial nos pedir o passaporte. Demos pra ele, que imediatamente telefonou pra alguém, e esse alguém, um policial à paisana, logo chegou. Bem, ele ficou soletrando nossos nomes pra alguém pelo celular, claro que demorou uma eternidade. Depois veio tentar conversar comigo, mas logo viu que a conversa não ia fluir, pois seu inglês era fraco. Acabou me passando o celular dele, e me pedindo para eu conversar com a pessoa que estava do outro lado da linha.

A pessoa se identificou como do Serviço de Segurança e me fez uma saraivada de perguntas, como qual era a profissão e o nome da empresa que cada um de nós trabalhava, se tínhamos amigos na Rússia, e se eu já tinha visitado a Rússia antes. Bem, quando eu disse à ele que já tinha visitado Moscou vinte anos antes, ele logo concluiu : “Então você TEM amigos na Rússia”. Claro que usei toda a paciência do mundo para convencê-lo de que não tinha amigos na Rússia, apenas éramos turistas querendo conhecer Grozny, na Chechênia por poucas horas, voltar e ir embora da Rússia no dia seguinte. Se isso já não faz sentido para qualquer ser humano normal, imagina pro cara do Serviço de Segurança Russo, que nunca deve ter ouvido falar de gente com esta programação. Mas, enfim, depois de mais de 1 hora, ele nos liberou e desejou boa viagem.

Só que aí já tinha ficado tarde demais para pegarmos o ônibus, e decidimos negociar com um táxi para nos levar, rodar um pouco, e voltar. Isso sem nenhum motorista de táxi falar inglês. Não foi muito difícil em menos de 5 minutos já estávamos dentro de um táxi, e quando o motorista deu a partida, o mesmo policial à paisana colocou a cabeça pra dentro do táxi e perguntou : “Vocês não disseram que iam de ônibus?”. A vontade era de dar uma porrada na cabeça dele, ou de gargalhar, mas tivemos que explicar que tínhamos perdido muito tempo COM ELE, e por isso mudamos os planos. Tudo certo, partimos.

Na saída de Vladikavkaz, uma blitz, e quando o policial avistou 4 turistas dentro do carro, logo pediu meu passaporte. Incrível, parecia um pesadelo sem fim. Mas logo nos liberou, e fomos embora. Uma coisa tem que ser dita antes de alguma conclusão precipitada : todos os policiais foram super educados, não tivemos nenhum problema, além de perder muito tempo com eles.

 
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Posted by on October 13, 2014 in Caucasus, Cáucaso, Russia

 

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Abcásia – um país esquecido por todos (menos a Rússia)

Chegamos cedo em Zugdidi. A maioria dos turistas que chegam aqui, vão para Svaneti, uma região nas montanhas, que dizem ser lindíssima. Aliás, todo o norte da Georgia é separado da Rússia pelo Cáucaso, uma cadeia de montanhas que estabelece a divisão entre a Ásia e a Europa. São vários picos com mais de 5.000m de altitude Da estação, pegamos um táxi até a fronteira com a Abcásia, que fica à 12 kms de Zugdidi, bem pertinho. Vamos agora à mini aula de história e política, sem a qual não dá pra entender o que fomos fazer nesse lugar.

A Abcásia é um país reconhecido por poucos países, a maioria deles também não reconhecidos. Claro que existe um grande patrocinador nessa história, que é a Rússia. Bem a história recente é que houve uma guerra separatista em 1992 e 1993, que matou milhares de pessoas, e fez a população reduzir em 2/3. Hoje cerca de 180.000 pessoas vivem no país. Pela sua localização estratégica à beira do Mar Negro, suas belas praias, e ficar entre a Geórgia e a Rússia, é uma região estratégica. A Rússia reconhece a Abcásia como independente, mas a realidade é que estávamos na Rússia. A moeda é o rublo russo, a língua é o russo, o exército é meio abcásio, meio russo, e os turistas são russos. O dinheiro do país vem da Rússia. Precisa dizer mais alguma coisa?

A Geórgia reconhece a Abcásia como sua, portanto não há controle de passaporte na saída. Depois cruzamos uma longa ponte à pé, até chegarmos à fronteira da Abcásia.

Ponte que liga a Geórgia à Abcásia

Ponte que liga a Geórgia à Abcásia

Sukhumi, a capital do país fica bem no meio do caminho da fronteira sul (com a Geórgia) para a fronteira norte (com a Rússia), que é perto de Socchi, palco da última Olimpíada de Inverno. Da fronteira até Sukhumi são pouco mais de 100 kms, e pegamos um táxi junto com uma tiazinha, que não falava nada de inglês (nem de português). O motorista também não! Como tínhamos apenas uma autorização para entrar no país, tínhamos que ir no Ministério pegar o visto, o que nos permitira sair do país. É claro que virou prioridade. O problema foi descobrir que era feriado nacional (existe feriado regional na Abcásia?), e tava tudo fechado. Tínhamos que deixar para o dia seguinte. Neste trecho do país, da fronteira até a capital, só o que vimos foram prédios destruídos e/ou abandonados, quase ninguém nas ruas, quase nenhum carro, e muitas, muitas vacas perambulando pelo meio da estrada.

Prédios destruídos e abandonados

Prédios destruídos e abandonados

A procura por lugar pra dormir foi meio bizarra. Tínhamos indicação de um lugar, mas estava cheio. Quase ninguém fala inglês neste país, lembrem que os turistas são todos russos, pra que aprender o inglês? Como era feriado, e cedo, não havia uma alma viva nas ruas. Foi um pouco complicado, mas na sorte achamos um hotel fantástico. Com um pouco de negociação, chegamos à um preço bem razoável, mas ainda caro para nossos padrões. A questão é que o quarto era maravilhoso, espaçoso, com varanda, um luxo só. O dono do pedaço era gente finíssima, falava inglês, e cuidava do local com muito carinho, bem detalhista.

Mas não podíamos perder tempo, e logo caímos na rua. Fomos de táxi para a estação de trem, pois de lá sairia um ônibus que iria até a fronteira norte. Nosso objetivo era visitar o Monastério Novy Afon. Ele fica à 20 kms de Sukhumi, e a estrada parece uma Rio-Santos. Novy Afon fica no meio de um morro, de lá se tem uma vista belíssima, para a praia em frente, com seus turistas russos. Parecia outro país, ao norte de Sukhumi, vibrante, nada destruído, cheio de turistas e movimento.

Novy Afon

Novy Afon

Praia em frente à Novy Afon

Praia em frente à Novy Afon

Voltamos de ônibus para Sukhumi. Era ainda final de tarde, e a orla estava bem vazia, não sei se pro conta do feriado.

Orla de Sukhumi

Orla de Sukhumi

Também não sei se por conta do feriado, mas não conseguimos muitas opções para o jantar, acabamos jantando no que parecia ser o mais popular da cidade, de frente pro mar. Pra quem achava que ia passar perrengue na Abcásia, ficamos em um hotel quase de luxo, e jantamos no melhor restaurante. Saiu melhor do que a encomenda. Chegamos do jantar e o dono do hotel nos esperava com bolinho e chá. Que mordomia.

No dia seguinte acordamos cedo, e já tinha um banquete nos esperando. Nada de buffet, até porque além de nós, só tinham 3 ciclistas poloneses, que tinham perdido o dia esperando o visto para poder sair do país. Tudo feito na hora, no capricho.

Fomos buscar nosso visto, e de lá para a estação de ônibus, pegar um transporte de volta para a fronteira.

Visto Abcásia

Visto Abcásia

O que posso dizer sobre este país? Aliás, é um país? Eu penso que sim. Eles têm seu próprio governo, exército, idioma, autonomia administrativa, claro que tudo isso com uma mãozona da Rússia, mas não deixa de ser um país. A Geórgia nunca mais vai tê-lo de volta, essa é uma realidade. Principalmente depois da confusão com a Ucrânia, a Rússia não vai deixar ninguém tocar nesta terra. O máximo que poderia acontecer é ela tomar pra ela mesma. Porém, se não fez até agora, é porque não precisa. Só reforçando o que eu já tinha escrito antes, quem entra pela fronteira norte, com a Rússia, é considerado ilegal pela Geórgia, e não consegue atravessar para a Geórgia, em vez de entrar no país, entra em cana (de verdade!). Claro que não era nosso caso.

Valeu à pena ter conhecido, nada imperdível, mas fazia parte do objetivo da viagem.

 

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